domingo, 4 de junho de 2017

Andando in vespa

 Último fim de semana de "trintasmus". Manhã preguiçosa, com direito a um binge de netflix. Único horário em vista a visita guiada às 14:30. Tortelinni in brodo caseiro para o almoço, e às 13 estava na rua. Graças aos pórticos a cidade é transitável mesmo no pico do calor. 
 Depois de passar várias vezes à frente da porta do Museo Internazionale e biblioteca della Musica, finalmente os anjos se conjugaram para que pudesse visitar o museu. De graça, porque sou estudante. Mas que acabou por gastar 4euros no audioguia porque estou a ficar severamente viciada em visitas guiadas, sob qualquer forma. O acervo do museu é interessante, tem muitos instrumentos
antigos, mas está mais virado para a história da música (compositores, etc) do que propriamente para os instrumentos. Mas o que faz a visita valer a pena é o edifício. Um palazzo antigo, totalmente decorado com frescos de 1700-1800, perfeitamente restaurados. Cada vez mais penso que nesta cidade alguns dos museus valem mais pelo edifício do que pelo conteúdo... 
 Segui depois calmamente para a Piazza Maggiore, onde ia começar a Tour dei Torri. A guia era extremamente enstusiástica, alternando rapidamente entre o italiano e o inglês, às vezes de forma tão rápida que nem um nem outros compreendia. Mais uma vez fiquei feliz por me ter dedicado um pouco ao italiano, porque a versão italiana tinha o dobro da informação... Passei por várias torres que nunca tinha reparado, finalmente percebi como entravam nas portas que estacam à altura de 2 andares (as torres antigamente tinham uma escadaria de madeira à frente), descobri que a "piazza" onde já jantei 2 vezes é na verdade uma "cuorte" (espécie de compound de uma família rica). Estranhamente as duas torres mais famosas, Garisenda e Asinelli mal foram mencionadas. E finalmente
chegamos à Torre Prendiparte, aquela que íamos subir. Uma torre engraçada, que foi em tempos uma torre de vigia, escola e depois prisão eclesiástica e agora um bed and breakfast que organiza eventos no topo. No momento em que começamos a subida me dei conta que usar uma saia de verão foi uma boa idéia para o resto do passeio, mas não para subir escadas super inclinada num grupo que incluía 4 pré-adolescentes alemães.Não só pelo espetáculo como pelo facto de estar sempre em risco de pisar a saia a subir. Portanto segui o exemplo da jovem à minha frente e dei um nó na saia que resultou numa coisa tipo fralda. Mais prático e menos risco de ser acusada de abuso de menores. A subida foi tranquila, porque teve direito a  pausas nos vários  andares - a cozinha, a sala de estar, a prisão (com direito a grafitti na parede)... A vista do topo dos 67m  foi recompensa suficiente. Visão de 360º a partir do centro da cidade.
Ainda assim, gostei mais da torre de astronomia, de ver a cidade não de dentro mas da periferia. E custou menos a subir.

 Depois de um pequeno passeio para respirar ar fresco (a torre era um pouco abafada), continuei o meu plano de conhecer todos os museus de Bolonha, nomeadamente o Museu Cívico Arqueológico, vizinho do Archiginnasio. Confesso que mais do que o espólio do museu me movia a curiosidade de conhecer o interior da Chiesa de Santa Maria della Morte, onde o museu se encontra. Pequena desilusão, porque realmente não há grandes vestigios da igreja, mas o museu tem o seu quê de graça. Uma perspectiva de Bolonha desde a pré-história até à epoca romana, passando por uma colecção enorme etrusca (forma encontradas  não sei quantas necrópoles na cidade e arredores). Como não podia deixar de ser, tinha de ter a contribuição da colecção de Pelagio Palagi. A colecção egípcia, a 2ª maior da Itália, deve 75% do seu acerco ao cabinet de curiosité do pintor...
 Para terminar o dia em grande, e perseguindo um dos meus objectivos bolonheses, fui até à Cremeria Funivia. Onde finalmente acabei de provar todos os sabores, incluindo pêssego e kiwi. Agora posso começar a repetir os favoritos. Pelo caminho, prestei atenção a uma estátua que já tinha visto dezenas de vezes mas que nunca tinha realmente reparado. Confirmando o que tinha lido no guia, a estátua retrata Galvani fazendo maldades a uma rã. Nice. 

 Domingo mais um dia, mais uma visita guiada. Desta vez mais cedo, de manhã, e em italiano. Os 7 segredos de Bolonha. Confesso que ia com as expectativas um pouco em baixo, tendo em conta que é a 3ª visita guiada que fazia, mas outra vez, fui surpreendida. O que começa a ser um pouco recorrente... Descobri pormenores deliciosos em locais onde já tinha estado dezenas de vezes. Como por exemplo que na parede do Palazzo Comunale está uma pedra com as medidas de comprimento oficiais da cidade, onde só hoje já tinha passado em frente quatro vezes à procura da guia e não tinha reparado. Ou que a Igreja de São Petrónio foi construída da frente para trás, e que enquanto juntavam dinheiro para o projecto de ampliação a parede posterior era constituída por um tapume gigante de madeira com frescos pintados. Pelo meio ainda encontramos
uma procissão equatoriana gigantes, a levar uma estátua da Virgem de de Santa Maria della Vita para a Catedral de São Pedro. Posso  ter perdido a procissão da Virgem de San Lucca, mas ao menos vi uma. Dos 7 segredos,  só conhecia um deles.
 Cansada da andança e com alguma fome, fui até à Via Altabella ver se a Enoteca Storica onde tinha estado no outro dia e que parecia ter um menu de almoço baratinho estava aberta. Infelizmente não, mas a rua tinha muitas outras opções. Escolhi mais pela esplanada do que pelo aspecto da comida. O que foi mal jogado, porque ao fim de 15 minutos começou a chover torrencialmente, quase afogando o meu tagliatelle al ragú... Chuva tropical, que caiu forte e rápido, e me obrigou a procurar abrigo no interior do restaurante. Mas quando terminei a refeição nem sequer cheiro a terra molhada havia, graças ao calor da tarde.
 Mais uma volta, mais um museu. Palazzo Fava. Só abre para exposições temporárias. E estudante universitário não entra de graça. Tem um descontinho, como em todos locais geridos pelo Genus Bononiae. Que também, ao contrário da maioria dos museus locais, não tem entrada gratuita no 1º domingo de cada mês. Humpf. Os 5 euros valeram pelo edifício, que era o que eu realmente queria conhecer, com os frescos famosos dos Carracci. Porque a mostra de pintura italiana do século XX não me despertou grande interesse...
 Para terminar a peregrinação museológica fui à Pinacoteca Nazionale, onde entrei de graça porque era domingo. O edifício não é particularmente interessante, mas os quadros são. Outra vez, e como em quase todos os museus da cidade, se foca em artistas locais ou que pintaram por estes lados, desde a época medieval até ao séciulo XVIII. Algumas obras de superstars (Ghiotto, Raphael, Ticiano). Na esmagadora maioria obras oriundas dos conventos e igrejas da zona. Sou agora uma expert em reconhecer São Petrónio
em pinturas: é o senhor barbudo com a maquete da cidade na mão (com a torre Garisenda inclinada, provando que o problema veio de origem e não com o tempo). A organização é inteligente, permitindo acompanhar a evolução das técnicas ao longo do tempo. E chegar à determinadas conclusões. Arte medieval: everybody looks angry. Arte renascentista: everybody looks bored. Arte setecentista: everybody is moving or going somewhere. Próximo master: história da arte. 
 Embora ainda me faltem alguns museus (não muitos!), na realidade só quero visitar mais um. Se não tiver tempo esta semana, fica para a próxima visita em Outubro.
 Apesar desta actividade cultura toda ainda eram só 17H, pelo que aproveitei  para me sentar numa esplanada silenciosa da Via Zamboni e dar uso ao Kindle de substituição emprestado pelo progenitor. 
 Fui para casa relativamente cedo, para me prepara para o jantar com o Prof Chefe, esposa, e elementos da faculty do master. Às 19:45 em ponto estava no Ospedale, pronta para a boleia que tinha sido oferecida pelo senior que estava de banco até às 20. Qual não foi a minha surpresa quando ele me ofereceu um capacete. Fui de vespa para o jantar Experiência italiana oficialmente completa.
 

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