Acordei sem grande vontade de sair da cama. Cansaço, saudades de casa, sensação de que já vi tudo o que queria ver, resultaram numa mini maratona de cinema debaixo das cobertas. Mas a meio da manhã resolvi espreitar na net se os museus da Universidade, que ando a tentar visitar desde que cheguei mas que tem um horário para lá de limitado (tipo das 10 às 14) estariam abertos no feriado. E, incrivelmente, alguns não só estavam abertos como tinham visitas guiadas. Com nova motivação, lá me arrastei para fora da cama.
Decidi que a primeira paragem seria o Museo della Specola, no Palazzo Poggi. Não só já tinha passado mesmo à porta por duas vezes (fica ao lado do Museo do Palazzo Poggi, no mesmo edifício), como era o único com visita guiada em inglês. No caminho comecei a ter uma sensação estranha, não imediatamente identificada, de que algo estava diferente. Já quase na rua do museu descobri o que se passava: a cidade estava vazia. Nos 20 minutos de percurso vi duas pessoas e 3 carros. Silêncio quase total. É a sensação que associo à saída de banco na manhã dos grandes feriados, quando no caminho para casa não se vê ninguém na rua, nem sequer há barulho de carros. Uma calma fora de lugar. E que eu adoro. Não é que eu não goste de pessoas, mas adoro ir ao cinema quando está vazio, à praia quando não está lá ninguém, egoisticamente ter os lugares só para mim. A ausência de pessoas associada ao dia bonito mas não muito quente foram a minha recompensa por ter lutado contra a inércia.
Uma vez no museu, mais um pequeno presente. Uma visita guiada só para mim. E de graça, porque eu sou estudante da UniBo. A guia falava impecavelmente Her Majesty's English, e fez uma visita interessantíssima. O museu fica na torre de observação astronómica do Palazzo, e tem desde telescópios antigos às primeiras calculadoras de bolso, passando por mapas celestes com inscrições em chinês feitos por jesuítas no século XVI. A guia não era astrónoma, mas sim um doutoranda em história da Ciência, e quando se apercebeu que eu tinha algum background no assunto e
interesse acabou por alongar a visita quase meia hora (a visita em italiano com o doutrando em astrofísica acabou muito antes da nossa). E no final, o melhor de tudo: a vista de Bolonha do alto da torre. Na saída ainda passei pelo terceiro museu do Palazzo, o Museu Europeu dos Estudantes, sem a menor graça comparado com os outros.
Resolvi dalí aproveitar o silêncio enquanto durava, e passeie pela zona da universidade sem rumo e sem fones. De forma casual ao museu triplo: Zoologia, Anatomia Comparada e Antropologia. Ao contrário dos museus do Palazzo Poggi, com o seu ar profissional e pessoal treinado, neste encontrei duas estudantes à porta, claramente a tentar ganhar uns trocos ou uns créditos, que simpaticamente mas sem grande interesse apontaram na direcção da exposição. No 1º e 2º andar, o Museo de Zoologia. Um museo à antiga, com animais empalhados em vitrines e frascos. Claramente já conheceu melhores dias e sofre certamente de falta de atenção, mas ainda mantém um pouco o seu charme old school. E tem 2
peixes luas maiores do que eu expostos, portanto valeu a pena. Como na rua e no outro museu, era a única pessoa. Mais um museu só para mim!
Continuei a minha missão muesológica até ao 3º andar, para o Museu de Anatomia Comparada. Outra vez, uma colecção velha, com ar pouco cuidado, poucas explicações, e 3 estudantes que nem sequer eram simpáticos a tomar conta do pedaço. Entrei com pouca expectativa, mas fui arrebatada logo na primeira vitrine. Preparações com 100 anos dos diferentes tractos
digestivos, com intestinos que iam do rato ao camelo, seguidas de mais duas vitrines com aparelhos urinários e reprodutores. Sem grandes identificações, mas eu só precisava de descobrir o animal, porque afinal por dentro é tudo semelhante. Daí em diante eram só ossos, vistos em passo de corrida.
Quarto andar, museu de Antropologia. Ainda menos cuidado que os outros dois. A qualidade por aqui descresce com a altitude. Nem sequer vi os estudantes, ouvio-os só na conversa numa sala ao fundo do museu. Exposição fraquinha, cujo único ponto de interesse era uma sala repleta de vitrinas de
madeira e vidro com máscaras em gesso de indíviduos de várias tribos africanas, que deve ser bastante assustadora à noite.
Saí novamente para a luz do dia, decidida a ir até ao centro, sem grande objectivo. E sem querer passei pelo Museo Geologico da Unibo. E pensei, porque não? Mais uma vez recebida pela juventude estudantil, mais motivada para a conversa do que para o trabalho. E novamente sozinha. Sem grande interesse, com o meu podcast por companhia, fui passando de uma sala para a outra, repletas de (novamente) vitrines old school repletas de calhaus sem grande informação para além de quem tinha doado e de onde
vinham. E bum, entro na sala dos fósseis, onde sou recebida por um esqueleto de dinossauro que não ficaria mal no saguão do Natural History Museum de Londres. Várias salas sucessivas com fósseis de animais, peixes, plantas. Nada como não ter expectativas para ser surpreendida.
Depois de tanta cultura, era hora do almoço. Andando em direcção ao centro as pessoas começaram a aparecer, mas não os carros - o centro é totalmente pedestre durante o fim de semana. Fui ziguezagueando, procurando a melhor combinação de esplanada, sombra e barulho. Acabei por me sentar num restaurante com ar simpático, e escolher uma bisteca
para o almoço. E aperceber-me que tirando o recheio dos tortelinnis não como carne há um mês. O prato que veio parecia ter sido cozinhado a partir de um dos animais do museu geológico: a bisteca saia para fora de tão grande. Nem deixou espaço para sobremesa...
Resolvi alterar um pouco o meu trajecto habitual, virar uma rua antes, e sem querer descobri toda uma Bolonha que me faltava. É o que dá, achar que já sei alguma coisa. O verdadeiro ghetto judaico, cuja periferia eu conhecia mas não o centro. Toda a zona entre as duas ruas novas, via dell'Independenza e via Marconi, que eu
sempre achei que não tinha grande coisa para descobrir. E lá me perdi de novo, no meio das arcadas, entrando em igrejas que não conhecia e espreitando pelas portas entreabertas. Encontrei várias torres que não conhecia, e um poster anunciando uma visita guiada amanhã (already booked)
Encontrei sem procurar o Museo Cívico Mediavale, no Palazzo Guisilardi. Outra vez sem grandes expectativas para o espólio, mas querendo conhecer o interior do palácio, aproveitei o meu cartão da UniBo (ser estudante é tão bom!) e entrei de borla. E novamente me surpreendi com o conteúdo. Tenho mesmo de repensar a minha atitude em relação a muita coisa... O acervo do museu começou como o Wunderkammer de dois artistas do século XVIII, portanto tem desde estampas de santos feitas com penas de aves tropicais do México a sapatos de cortesã de Veneza em 1500. Depois das primeiras salas fica mais museu, com muitos túmulos e armaduras. O interior do edifício não é muito impressionante (tendo em conta o que já vi por estes lados), mas é labiríntico devido às sucessivas construções desde o século XII, o que torna a visita divertida, subindo e descendo escadas.
Cansada de tanta andança e tanta cultura, fui fazer o que os
italianos fazem e me sentar numa esplanada para o aperitivo. Fiquei a aproveitar o meu mojito até o gelo derreter (finalmente aprendi a pedir a bebida certa), e quando o sol se começou a pôr achei que era a minha deixa para ir para casa, planear um novo ataque museológico para amanhã.








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