quinta-feira, 8 de junho de 2017
Arriverdeci
Última entrada, directamente do aeroporto.
Objectivos cumpridos:
- integração num serviço diferente: check
- Aperfeiçoamento dos skills laparoscópicos: check (embora não tenha conseguido bem bem inventar o modelo que queria)
- Observação de cirurgia laparoscópica: check minus (não fui que não vi, foi a menor prevalência que o previsto da mesma)
- Domínio básico do italiano: check plus (não só consigo seguir uma conversa e participar, como consegui reclamar com o sr da máquina de chocolates do hospital de forma clara o suficiente para ele me devolver o dinheiro que a máquina tinha comido)
- Conhecimento da cidade: check plus plus (próximo projecto educativo é a obtenção da licença de guia turística em Bolonha)
- Conhecimento da gastronomia local: check plus plus plus (que também é o tamanho actual das minhas calças)
- Degustação de todos os sabores da Funivia: check
- Corrida de 5 km: não check.
Foi um mês muito agradável, na minha “bolha”. Mas já é altura de voltar a ser um membro produtivo da sociedade. Para média infelicidade minha…
Só sobra tempo para um último gelato.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
Cervello stanco
Três dias seguidos de labuta intelectual intensiva em 3 línguas diferentes. Cérebro saltando entre inglês, italiano e português. Cérebro se sentindo pequeno e preguiçoso na presença de mentes brilhantes, cada uma à sua maneira - o pensador out of the box, o analítico, o inventor e o experiente. Nem só de cirurgia vive o cirurgião.
Para além da parte científica, convívio social muito agradável, com direito a aperitivo com os italianos antes do jantar oficial na 2ª, e gelado com a italiana simpática na 3ª que terminou em convívio com os profs, que de tanto ouvirem falar na Cremeria Funivia também resolveram lá passar. Abriu caminho para um possível estudo prospectivo duplamente cego comparando a qualidade do gelato da Funivia e de outra gelataria que asseguram que está ao nível desta (duvido).
E hoje à tarde despedida da cidade após o encerramento da sessão.
Me myself and I demos uma volta pelo centro, entramos finalmente em lojas de roupa (mas não compramos nada) e depois fomos descansar para uma esplanada agradável, nas traseiras da Basilica de San Petronio, com um cappucino e o kindle, a fazer tempo para o jantar. Como que para me deixar com menos saudades, pela primeira vez a Osteria del'Orsa me desiludiu. A pasta não estava
grande coisa. Mas o tiramisú estava delicioso como sempre para compensar.
Caminho o mais indirecto possível para casa, me perdendo por ruas conhecidas, para evitar o inevitável fim do dia. E para ajudar na digestão.
Malas feitas com pouca vontade... E constatação infeliz de que moro num 3º andar sem elevador e amanhã não tenho companheiro de casa simpático para me ajudar com as malas ...
Para além da parte científica, convívio social muito agradável, com direito a aperitivo com os italianos antes do jantar oficial na 2ª, e gelado com a italiana simpática na 3ª que terminou em convívio com os profs, que de tanto ouvirem falar na Cremeria Funivia também resolveram lá passar. Abriu caminho para um possível estudo prospectivo duplamente cego comparando a qualidade do gelato da Funivia e de outra gelataria que asseguram que está ao nível desta (duvido).
E hoje à tarde despedida da cidade após o encerramento da sessão.
Me myself and I demos uma volta pelo centro, entramos finalmente em lojas de roupa (mas não compramos nada) e depois fomos descansar para uma esplanada agradável, nas traseiras da Basilica de San Petronio, com um cappucino e o kindle, a fazer tempo para o jantar. Como que para me deixar com menos saudades, pela primeira vez a Osteria del'Orsa me desiludiu. A pasta não estava
grande coisa. Mas o tiramisú estava delicioso como sempre para compensar.
Caminho o mais indirecto possível para casa, me perdendo por ruas conhecidas, para evitar o inevitável fim do dia. E para ajudar na digestão.
Malas feitas com pouca vontade... E constatação infeliz de que moro num 3º andar sem elevador e amanhã não tenho companheiro de casa simpático para me ajudar com as malas ...
domingo, 4 de junho de 2017
Andando in vespa
Último fim de semana de "trintasmus". Manhã preguiçosa, com direito a um binge de netflix. Único horário em vista a visita guiada às 14:30. Tortelinni in brodo caseiro para o almoço, e às 13 estava na rua. Graças aos pórticos a cidade é transitável mesmo no pico do calor.
Depois de passar várias vezes à frente da porta do Museo Internazionale e biblioteca della Musica, finalmente os anjos se conjugaram para que pudesse visitar o museu. De graça, porque sou estudante. Mas que acabou por gastar 4euros no audioguia porque estou a ficar severamente viciada em visitas guiadas, sob qualquer forma. O acervo do museu é interessante, tem muitos instrumentos
antigos, mas está mais virado para a história da música (compositores, etc) do que propriamente para os instrumentos. Mas o que faz a visita valer a pena é o edifício. Um palazzo antigo, totalmente decorado com frescos de 1700-1800, perfeitamente restaurados. Cada vez mais penso que nesta cidade alguns dos museus valem mais pelo edifício do que pelo conteúdo...
Segui depois calmamente para a Piazza Maggiore, onde ia começar a Tour dei Torri. A guia era extremamente enstusiástica, alternando rapidamente entre o italiano e o inglês, às vezes de forma tão rápida que nem um nem outros compreendia. Mais uma vez fiquei feliz por me ter dedicado um pouco ao italiano, porque a versão italiana tinha o dobro da informação... Passei por várias torres que nunca tinha reparado, finalmente percebi como entravam nas portas que estacam à altura de 2 andares (as torres antigamente tinham uma escadaria de madeira à frente), descobri que a "piazza" onde já jantei 2 vezes é na verdade uma "cuorte" (espécie de compound de uma família rica). Estranhamente as duas torres mais famosas, Garisenda e Asinelli mal foram mencionadas. E finalmente
chegamos à Torre Prendiparte, aquela que íamos subir. Uma torre engraçada, que foi em tempos uma torre de vigia, escola e depois prisão eclesiástica e agora um bed and breakfast que organiza eventos no topo. No momento em que começamos a subida me dei conta que usar uma saia de verão foi uma boa idéia para o resto do passeio, mas não para subir escadas super inclinada num grupo que incluía 4 pré-adolescentes alemães.Não só pelo espetáculo como pelo facto de estar sempre em risco de pisar a saia a subir. Portanto segui o exemplo da jovem à minha frente e dei um nó na saia que resultou numa coisa tipo fralda. Mais prático e menos risco de ser acusada de abuso de menores. A subida foi tranquila, porque teve direito a pausas nos vários andares - a cozinha, a sala de estar, a prisão (com direito a grafitti na parede)... A vista do topo dos 67m foi recompensa suficiente. Visão de 360º a partir do centro da cidade. Ainda assim, gostei mais da torre de astronomia, de ver a cidade não de dentro mas da periferia. E custou menos a subir.
Depois de um pequeno passeio para respirar ar fresco (a torre era um pouco abafada), continuei o meu plano de conhecer todos os museus de Bolonha, nomeadamente o Museu Cívico Arqueológico, vizinho do Archiginnasio. Confesso que mais do que o espólio do museu me movia a curiosidade de conhecer o interior da Chiesa de Santa Maria della Morte, onde o museu se encontra. Pequena desilusão, porque realmente não há grandes vestigios da igreja, mas o museu tem o seu quê de graça. Uma perspectiva de Bolonha desde a pré-história até à epoca romana, passando por uma colecção enorme etrusca (forma encontradas não sei quantas necrópoles na cidade e arredores). Como não podia deixar de ser, tinha de ter a contribuição da colecção de Pelagio Palagi. A colecção egípcia, a 2ª maior da Itália, deve 75% do seu acerco ao cabinet de curiosité do pintor...
Para terminar o dia em grande, e perseguindo um dos meus objectivos bolonheses, fui até à Cremeria Funivia. Onde finalmente acabei de provar todos os sabores, incluindo pêssego e kiwi. Agora posso começar a repetir os favoritos. Pelo caminho, prestei atenção a uma estátua que já tinha visto dezenas de vezes mas que nunca tinha realmente reparado. Confirmando o que tinha lido no guia, a estátua retrata Galvani fazendo maldades a uma rã. Nice.
Domingo mais um dia, mais uma visita guiada. Desta vez mais cedo, de manhã, e em italiano. Os 7 segredos de Bolonha. Confesso que ia com as expectativas um pouco em baixo, tendo em conta que é a 3ª visita guiada que fazia, mas outra vez, fui surpreendida. O que começa a ser um pouco recorrente... Descobri pormenores deliciosos em locais onde já tinha estado dezenas de vezes. Como por exemplo que na parede do Palazzo Comunale está uma pedra com as medidas de comprimento oficiais da cidade, onde só hoje já tinha passado em frente quatro vezes à procura da guia e não tinha reparado. Ou que a Igreja de São Petrónio foi construída da frente para trás, e que enquanto juntavam dinheiro para o projecto de ampliação a parede posterior era constituída por um tapume gigante de madeira com frescos pintados. Pelo meio ainda encontramos
uma procissão equatoriana gigantes, a levar uma estátua da Virgem de de Santa Maria della Vita para a Catedral de São Pedro. Posso ter perdido a procissão da Virgem de San Lucca, mas ao menos vi uma. Dos 7 segredos, só conhecia um deles.
Cansada da andança e com alguma fome, fui até à Via Altabella ver se a Enoteca Storica onde tinha estado no outro dia e que parecia ter um menu de almoço baratinho estava aberta. Infelizmente não, mas a rua tinha muitas outras opções. Escolhi mais pela esplanada do que pelo aspecto da comida. O que foi mal jogado, porque ao fim de 15 minutos começou a chover torrencialmente, quase afogando o meu tagliatelle al ragú... Chuva tropical, que caiu forte e rápido, e me obrigou a procurar abrigo no interior do restaurante. Mas quando terminei a refeição nem sequer cheiro a terra molhada havia, graças ao calor da tarde.
Mais uma volta, mais um museu. Palazzo Fava. Só abre para exposições temporárias. E estudante universitário não entra de graça. Tem um descontinho, como em todos locais geridos pelo Genus Bononiae. Que também, ao contrário da maioria dos museus locais, não tem entrada gratuita no 1º domingo de cada mês. Humpf. Os 5 euros valeram pelo edifício, que era o que eu realmente queria conhecer, com os frescos famosos dos Carracci. Porque a mostra de pintura italiana do século XX não me despertou grande interesse...
Para terminar a peregrinação museológica fui à Pinacoteca Nazionale, onde entrei de graça porque era domingo. O edifício não é particularmente interessante, mas os quadros são. Outra vez, e como em quase todos os museus da cidade, se foca em artistas locais ou que pintaram por estes lados, desde a época medieval até ao séciulo XVIII. Algumas obras de superstars (Ghiotto, Raphael, Ticiano). Na esmagadora maioria obras oriundas dos conventos e igrejas da zona. Sou agora uma expert em reconhecer São Petrónio
em pinturas: é o senhor barbudo com a maquete da cidade na mão (com a torre Garisenda inclinada, provando que o problema veio de origem e não com o tempo). A organização é inteligente, permitindo acompanhar a evolução das técnicas ao longo do tempo. E chegar à determinadas conclusões. Arte medieval: everybody looks angry. Arte renascentista: everybody looks bored. Arte setecentista: everybody is moving or going somewhere. Próximo master: história da arte.
Embora ainda me faltem alguns museus (não muitos!), na realidade só quero visitar mais um. Se não tiver tempo esta semana, fica para a próxima visita em Outubro.
Apesar desta actividade cultura toda ainda eram só 17H, pelo que aproveitei para me sentar numa esplanada silenciosa da Via Zamboni e dar uso ao Kindle de substituição emprestado pelo progenitor.
Fui para casa relativamente cedo, para me prepara para o jantar com o Prof Chefe, esposa, e elementos da faculty do master. Às 19:45 em ponto estava no Ospedale, pronta para a boleia que tinha sido oferecida pelo senior que estava de banco até às 20. Qual não foi a minha surpresa quando ele me ofereceu um capacete. Fui de vespa para o jantar Experiência italiana oficialmente completa.
Depois de passar várias vezes à frente da porta do Museo Internazionale e biblioteca della Musica, finalmente os anjos se conjugaram para que pudesse visitar o museu. De graça, porque sou estudante. Mas que acabou por gastar 4euros no audioguia porque estou a ficar severamente viciada em visitas guiadas, sob qualquer forma. O acervo do museu é interessante, tem muitos instrumentos
antigos, mas está mais virado para a história da música (compositores, etc) do que propriamente para os instrumentos. Mas o que faz a visita valer a pena é o edifício. Um palazzo antigo, totalmente decorado com frescos de 1700-1800, perfeitamente restaurados. Cada vez mais penso que nesta cidade alguns dos museus valem mais pelo edifício do que pelo conteúdo...
Segui depois calmamente para a Piazza Maggiore, onde ia começar a Tour dei Torri. A guia era extremamente enstusiástica, alternando rapidamente entre o italiano e o inglês, às vezes de forma tão rápida que nem um nem outros compreendia. Mais uma vez fiquei feliz por me ter dedicado um pouco ao italiano, porque a versão italiana tinha o dobro da informação... Passei por várias torres que nunca tinha reparado, finalmente percebi como entravam nas portas que estacam à altura de 2 andares (as torres antigamente tinham uma escadaria de madeira à frente), descobri que a "piazza" onde já jantei 2 vezes é na verdade uma "cuorte" (espécie de compound de uma família rica). Estranhamente as duas torres mais famosas, Garisenda e Asinelli mal foram mencionadas. E finalmente
chegamos à Torre Prendiparte, aquela que íamos subir. Uma torre engraçada, que foi em tempos uma torre de vigia, escola e depois prisão eclesiástica e agora um bed and breakfast que organiza eventos no topo. No momento em que começamos a subida me dei conta que usar uma saia de verão foi uma boa idéia para o resto do passeio, mas não para subir escadas super inclinada num grupo que incluía 4 pré-adolescentes alemães.Não só pelo espetáculo como pelo facto de estar sempre em risco de pisar a saia a subir. Portanto segui o exemplo da jovem à minha frente e dei um nó na saia que resultou numa coisa tipo fralda. Mais prático e menos risco de ser acusada de abuso de menores. A subida foi tranquila, porque teve direito a pausas nos vários andares - a cozinha, a sala de estar, a prisão (com direito a grafitti na parede)... A vista do topo dos 67m foi recompensa suficiente. Visão de 360º a partir do centro da cidade. Ainda assim, gostei mais da torre de astronomia, de ver a cidade não de dentro mas da periferia. E custou menos a subir.
Depois de um pequeno passeio para respirar ar fresco (a torre era um pouco abafada), continuei o meu plano de conhecer todos os museus de Bolonha, nomeadamente o Museu Cívico Arqueológico, vizinho do Archiginnasio. Confesso que mais do que o espólio do museu me movia a curiosidade de conhecer o interior da Chiesa de Santa Maria della Morte, onde o museu se encontra. Pequena desilusão, porque realmente não há grandes vestigios da igreja, mas o museu tem o seu quê de graça. Uma perspectiva de Bolonha desde a pré-história até à epoca romana, passando por uma colecção enorme etrusca (forma encontradas não sei quantas necrópoles na cidade e arredores). Como não podia deixar de ser, tinha de ter a contribuição da colecção de Pelagio Palagi. A colecção egípcia, a 2ª maior da Itália, deve 75% do seu acerco ao cabinet de curiosité do pintor...
Para terminar o dia em grande, e perseguindo um dos meus objectivos bolonheses, fui até à Cremeria Funivia. Onde finalmente acabei de provar todos os sabores, incluindo pêssego e kiwi. Agora posso começar a repetir os favoritos. Pelo caminho, prestei atenção a uma estátua que já tinha visto dezenas de vezes mas que nunca tinha realmente reparado. Confirmando o que tinha lido no guia, a estátua retrata Galvani fazendo maldades a uma rã. Nice.
Domingo mais um dia, mais uma visita guiada. Desta vez mais cedo, de manhã, e em italiano. Os 7 segredos de Bolonha. Confesso que ia com as expectativas um pouco em baixo, tendo em conta que é a 3ª visita guiada que fazia, mas outra vez, fui surpreendida. O que começa a ser um pouco recorrente... Descobri pormenores deliciosos em locais onde já tinha estado dezenas de vezes. Como por exemplo que na parede do Palazzo Comunale está uma pedra com as medidas de comprimento oficiais da cidade, onde só hoje já tinha passado em frente quatro vezes à procura da guia e não tinha reparado. Ou que a Igreja de São Petrónio foi construída da frente para trás, e que enquanto juntavam dinheiro para o projecto de ampliação a parede posterior era constituída por um tapume gigante de madeira com frescos pintados. Pelo meio ainda encontramos
uma procissão equatoriana gigantes, a levar uma estátua da Virgem de de Santa Maria della Vita para a Catedral de São Pedro. Posso ter perdido a procissão da Virgem de San Lucca, mas ao menos vi uma. Dos 7 segredos, só conhecia um deles.
Cansada da andança e com alguma fome, fui até à Via Altabella ver se a Enoteca Storica onde tinha estado no outro dia e que parecia ter um menu de almoço baratinho estava aberta. Infelizmente não, mas a rua tinha muitas outras opções. Escolhi mais pela esplanada do que pelo aspecto da comida. O que foi mal jogado, porque ao fim de 15 minutos começou a chover torrencialmente, quase afogando o meu tagliatelle al ragú... Chuva tropical, que caiu forte e rápido, e me obrigou a procurar abrigo no interior do restaurante. Mas quando terminei a refeição nem sequer cheiro a terra molhada havia, graças ao calor da tarde.
Mais uma volta, mais um museu. Palazzo Fava. Só abre para exposições temporárias. E estudante universitário não entra de graça. Tem um descontinho, como em todos locais geridos pelo Genus Bononiae. Que também, ao contrário da maioria dos museus locais, não tem entrada gratuita no 1º domingo de cada mês. Humpf. Os 5 euros valeram pelo edifício, que era o que eu realmente queria conhecer, com os frescos famosos dos Carracci. Porque a mostra de pintura italiana do século XX não me despertou grande interesse...
Para terminar a peregrinação museológica fui à Pinacoteca Nazionale, onde entrei de graça porque era domingo. O edifício não é particularmente interessante, mas os quadros são. Outra vez, e como em quase todos os museus da cidade, se foca em artistas locais ou que pintaram por estes lados, desde a época medieval até ao séciulo XVIII. Algumas obras de superstars (Ghiotto, Raphael, Ticiano). Na esmagadora maioria obras oriundas dos conventos e igrejas da zona. Sou agora uma expert em reconhecer São Petrónio
em pinturas: é o senhor barbudo com a maquete da cidade na mão (com a torre Garisenda inclinada, provando que o problema veio de origem e não com o tempo). A organização é inteligente, permitindo acompanhar a evolução das técnicas ao longo do tempo. E chegar à determinadas conclusões. Arte medieval: everybody looks angry. Arte renascentista: everybody looks bored. Arte setecentista: everybody is moving or going somewhere. Próximo master: história da arte.
Embora ainda me faltem alguns museus (não muitos!), na realidade só quero visitar mais um. Se não tiver tempo esta semana, fica para a próxima visita em Outubro.
Apesar desta actividade cultura toda ainda eram só 17H, pelo que aproveitei para me sentar numa esplanada silenciosa da Via Zamboni e dar uso ao Kindle de substituição emprestado pelo progenitor.
Fui para casa relativamente cedo, para me prepara para o jantar com o Prof Chefe, esposa, e elementos da faculty do master. Às 19:45 em ponto estava no Ospedale, pronta para a boleia que tinha sido oferecida pelo senior que estava de banco até às 20. Qual não foi a minha surpresa quando ele me ofereceu um capacete. Fui de vespa para o jantar Experiência italiana oficialmente completa.
sábado, 3 de junho de 2017
Le viaggiatore egoista
Acordei sem grande vontade de sair da cama. Cansaço, saudades de casa, sensação de que já vi tudo o que queria ver, resultaram numa mini maratona de cinema debaixo das cobertas. Mas a meio da manhã resolvi espreitar na net se os museus da Universidade, que ando a tentar visitar desde que cheguei mas que tem um horário para lá de limitado (tipo das 10 às 14) estariam abertos no feriado. E, incrivelmente, alguns não só estavam abertos como tinham visitas guiadas. Com nova motivação, lá me arrastei para fora da cama.
Decidi que a primeira paragem seria o Museo della Specola, no Palazzo Poggi. Não só já tinha passado mesmo à porta por duas vezes (fica ao lado do Museo do Palazzo Poggi, no mesmo edifício), como era o único com visita guiada em inglês. No caminho comecei a ter uma sensação estranha, não imediatamente identificada, de que algo estava diferente. Já quase na rua do museu descobri o que se passava: a cidade estava vazia. Nos 20 minutos de percurso vi duas pessoas e 3 carros. Silêncio quase total. É a sensação que associo à saída de banco na manhã dos grandes feriados, quando no caminho para casa não se vê ninguém na rua, nem sequer há barulho de carros. Uma calma fora de lugar. E que eu adoro. Não é que eu não goste de pessoas, mas adoro ir ao cinema quando está vazio, à praia quando não está lá ninguém, egoisticamente ter os lugares só para mim. A ausência de pessoas associada ao dia bonito mas não muito quente foram a minha recompensa por ter lutado contra a inércia.
Uma vez no museu, mais um pequeno presente. Uma visita guiada só para mim. E de graça, porque eu sou estudante da UniBo. A guia falava impecavelmente Her Majesty's English, e fez uma visita interessantíssima. O museu fica na torre de observação astronómica do Palazzo, e tem desde telescópios antigos às primeiras calculadoras de bolso, passando por mapas celestes com inscrições em chinês feitos por jesuítas no século XVI. A guia não era astrónoma, mas sim um doutoranda em história da Ciência, e quando se apercebeu que eu tinha algum background no assunto e
interesse acabou por alongar a visita quase meia hora (a visita em italiano com o doutrando em astrofísica acabou muito antes da nossa). E no final, o melhor de tudo: a vista de Bolonha do alto da torre. Na saída ainda passei pelo terceiro museu do Palazzo, o Museu Europeu dos Estudantes, sem a menor graça comparado com os outros.
Resolvi dalí aproveitar o silêncio enquanto durava, e passeie pela zona da universidade sem rumo e sem fones. De forma casual ao museu triplo: Zoologia, Anatomia Comparada e Antropologia. Ao contrário dos museus do Palazzo Poggi, com o seu ar profissional e pessoal treinado, neste encontrei duas estudantes à porta, claramente a tentar ganhar uns trocos ou uns créditos, que simpaticamente mas sem grande interesse apontaram na direcção da exposição. No 1º e 2º andar, o Museo de Zoologia. Um museo à antiga, com animais empalhados em vitrines e frascos. Claramente já conheceu melhores dias e sofre certamente de falta de atenção, mas ainda mantém um pouco o seu charme old school. E tem 2
peixes luas maiores do que eu expostos, portanto valeu a pena. Como na rua e no outro museu, era a única pessoa. Mais um museu só para mim!
Continuei a minha missão muesológica até ao 3º andar, para o Museu de Anatomia Comparada. Outra vez, uma colecção velha, com ar pouco cuidado, poucas explicações, e 3 estudantes que nem sequer eram simpáticos a tomar conta do pedaço. Entrei com pouca expectativa, mas fui arrebatada logo na primeira vitrine. Preparações com 100 anos dos diferentes tractos
digestivos, com intestinos que iam do rato ao camelo, seguidas de mais duas vitrines com aparelhos urinários e reprodutores. Sem grandes identificações, mas eu só precisava de descobrir o animal, porque afinal por dentro é tudo semelhante. Daí em diante eram só ossos, vistos em passo de corrida.
Quarto andar, museu de Antropologia. Ainda menos cuidado que os outros dois. A qualidade por aqui descresce com a altitude. Nem sequer vi os estudantes, ouvio-os só na conversa numa sala ao fundo do museu. Exposição fraquinha, cujo único ponto de interesse era uma sala repleta de vitrinas de
madeira e vidro com máscaras em gesso de indíviduos de várias tribos africanas, que deve ser bastante assustadora à noite.
Saí novamente para a luz do dia, decidida a ir até ao centro, sem grande objectivo. E sem querer passei pelo Museo Geologico da Unibo. E pensei, porque não? Mais uma vez recebida pela juventude estudantil, mais motivada para a conversa do que para o trabalho. E novamente sozinha. Sem grande interesse, com o meu podcast por companhia, fui passando de uma sala para a outra, repletas de (novamente) vitrines old school repletas de calhaus sem grande informação para além de quem tinha doado e de onde
vinham. E bum, entro na sala dos fósseis, onde sou recebida por um esqueleto de dinossauro que não ficaria mal no saguão do Natural History Museum de Londres. Várias salas sucessivas com fósseis de animais, peixes, plantas. Nada como não ter expectativas para ser surpreendida.
Depois de tanta cultura, era hora do almoço. Andando em direcção ao centro as pessoas começaram a aparecer, mas não os carros - o centro é totalmente pedestre durante o fim de semana. Fui ziguezagueando, procurando a melhor combinação de esplanada, sombra e barulho. Acabei por me sentar num restaurante com ar simpático, e escolher uma bisteca
para o almoço. E aperceber-me que tirando o recheio dos tortelinnis não como carne há um mês. O prato que veio parecia ter sido cozinhado a partir de um dos animais do museu geológico: a bisteca saia para fora de tão grande. Nem deixou espaço para sobremesa...
Resolvi alterar um pouco o meu trajecto habitual, virar uma rua antes, e sem querer descobri toda uma Bolonha que me faltava. É o que dá, achar que já sei alguma coisa. O verdadeiro ghetto judaico, cuja periferia eu conhecia mas não o centro. Toda a zona entre as duas ruas novas, via dell'Independenza e via Marconi, que eu
sempre achei que não tinha grande coisa para descobrir. E lá me perdi de novo, no meio das arcadas, entrando em igrejas que não conhecia e espreitando pelas portas entreabertas. Encontrei várias torres que não conhecia, e um poster anunciando uma visita guiada amanhã (already booked)
Encontrei sem procurar o Museo Cívico Mediavale, no Palazzo Guisilardi. Outra vez sem grandes expectativas para o espólio, mas querendo conhecer o interior do palácio, aproveitei o meu cartão da UniBo (ser estudante é tão bom!) e entrei de borla. E novamente me surpreendi com o conteúdo. Tenho mesmo de repensar a minha atitude em relação a muita coisa... O acervo do museu começou como o Wunderkammer de dois artistas do século XVIII, portanto tem desde estampas de santos feitas com penas de aves tropicais do México a sapatos de cortesã de Veneza em 1500. Depois das primeiras salas fica mais museu, com muitos túmulos e armaduras. O interior do edifício não é muito impressionante (tendo em conta o que já vi por estes lados), mas é labiríntico devido às sucessivas construções desde o século XII, o que torna a visita divertida, subindo e descendo escadas.
Cansada de tanta andança e tanta cultura, fui fazer o que os
italianos fazem e me sentar numa esplanada para o aperitivo. Fiquei a aproveitar o meu mojito até o gelo derreter (finalmente aprendi a pedir a bebida certa), e quando o sol se começou a pôr achei que era a minha deixa para ir para casa, planear um novo ataque museológico para amanhã.
Decidi que a primeira paragem seria o Museo della Specola, no Palazzo Poggi. Não só já tinha passado mesmo à porta por duas vezes (fica ao lado do Museo do Palazzo Poggi, no mesmo edifício), como era o único com visita guiada em inglês. No caminho comecei a ter uma sensação estranha, não imediatamente identificada, de que algo estava diferente. Já quase na rua do museu descobri o que se passava: a cidade estava vazia. Nos 20 minutos de percurso vi duas pessoas e 3 carros. Silêncio quase total. É a sensação que associo à saída de banco na manhã dos grandes feriados, quando no caminho para casa não se vê ninguém na rua, nem sequer há barulho de carros. Uma calma fora de lugar. E que eu adoro. Não é que eu não goste de pessoas, mas adoro ir ao cinema quando está vazio, à praia quando não está lá ninguém, egoisticamente ter os lugares só para mim. A ausência de pessoas associada ao dia bonito mas não muito quente foram a minha recompensa por ter lutado contra a inércia.
Uma vez no museu, mais um pequeno presente. Uma visita guiada só para mim. E de graça, porque eu sou estudante da UniBo. A guia falava impecavelmente Her Majesty's English, e fez uma visita interessantíssima. O museu fica na torre de observação astronómica do Palazzo, e tem desde telescópios antigos às primeiras calculadoras de bolso, passando por mapas celestes com inscrições em chinês feitos por jesuítas no século XVI. A guia não era astrónoma, mas sim um doutoranda em história da Ciência, e quando se apercebeu que eu tinha algum background no assunto e
interesse acabou por alongar a visita quase meia hora (a visita em italiano com o doutrando em astrofísica acabou muito antes da nossa). E no final, o melhor de tudo: a vista de Bolonha do alto da torre. Na saída ainda passei pelo terceiro museu do Palazzo, o Museu Europeu dos Estudantes, sem a menor graça comparado com os outros.
Resolvi dalí aproveitar o silêncio enquanto durava, e passeie pela zona da universidade sem rumo e sem fones. De forma casual ao museu triplo: Zoologia, Anatomia Comparada e Antropologia. Ao contrário dos museus do Palazzo Poggi, com o seu ar profissional e pessoal treinado, neste encontrei duas estudantes à porta, claramente a tentar ganhar uns trocos ou uns créditos, que simpaticamente mas sem grande interesse apontaram na direcção da exposição. No 1º e 2º andar, o Museo de Zoologia. Um museo à antiga, com animais empalhados em vitrines e frascos. Claramente já conheceu melhores dias e sofre certamente de falta de atenção, mas ainda mantém um pouco o seu charme old school. E tem 2
peixes luas maiores do que eu expostos, portanto valeu a pena. Como na rua e no outro museu, era a única pessoa. Mais um museu só para mim!
Continuei a minha missão muesológica até ao 3º andar, para o Museu de Anatomia Comparada. Outra vez, uma colecção velha, com ar pouco cuidado, poucas explicações, e 3 estudantes que nem sequer eram simpáticos a tomar conta do pedaço. Entrei com pouca expectativa, mas fui arrebatada logo na primeira vitrine. Preparações com 100 anos dos diferentes tractos
digestivos, com intestinos que iam do rato ao camelo, seguidas de mais duas vitrines com aparelhos urinários e reprodutores. Sem grandes identificações, mas eu só precisava de descobrir o animal, porque afinal por dentro é tudo semelhante. Daí em diante eram só ossos, vistos em passo de corrida.
Quarto andar, museu de Antropologia. Ainda menos cuidado que os outros dois. A qualidade por aqui descresce com a altitude. Nem sequer vi os estudantes, ouvio-os só na conversa numa sala ao fundo do museu. Exposição fraquinha, cujo único ponto de interesse era uma sala repleta de vitrinas de
madeira e vidro com máscaras em gesso de indíviduos de várias tribos africanas, que deve ser bastante assustadora à noite.
Saí novamente para a luz do dia, decidida a ir até ao centro, sem grande objectivo. E sem querer passei pelo Museo Geologico da Unibo. E pensei, porque não? Mais uma vez recebida pela juventude estudantil, mais motivada para a conversa do que para o trabalho. E novamente sozinha. Sem grande interesse, com o meu podcast por companhia, fui passando de uma sala para a outra, repletas de (novamente) vitrines old school repletas de calhaus sem grande informação para além de quem tinha doado e de onde
vinham. E bum, entro na sala dos fósseis, onde sou recebida por um esqueleto de dinossauro que não ficaria mal no saguão do Natural History Museum de Londres. Várias salas sucessivas com fósseis de animais, peixes, plantas. Nada como não ter expectativas para ser surpreendida.
Depois de tanta cultura, era hora do almoço. Andando em direcção ao centro as pessoas começaram a aparecer, mas não os carros - o centro é totalmente pedestre durante o fim de semana. Fui ziguezagueando, procurando a melhor combinação de esplanada, sombra e barulho. Acabei por me sentar num restaurante com ar simpático, e escolher uma bisteca
para o almoço. E aperceber-me que tirando o recheio dos tortelinnis não como carne há um mês. O prato que veio parecia ter sido cozinhado a partir de um dos animais do museu geológico: a bisteca saia para fora de tão grande. Nem deixou espaço para sobremesa...
Resolvi alterar um pouco o meu trajecto habitual, virar uma rua antes, e sem querer descobri toda uma Bolonha que me faltava. É o que dá, achar que já sei alguma coisa. O verdadeiro ghetto judaico, cuja periferia eu conhecia mas não o centro. Toda a zona entre as duas ruas novas, via dell'Independenza e via Marconi, que eu
sempre achei que não tinha grande coisa para descobrir. E lá me perdi de novo, no meio das arcadas, entrando em igrejas que não conhecia e espreitando pelas portas entreabertas. Encontrei várias torres que não conhecia, e um poster anunciando uma visita guiada amanhã (already booked)
Encontrei sem procurar o Museo Cívico Mediavale, no Palazzo Guisilardi. Outra vez sem grandes expectativas para o espólio, mas querendo conhecer o interior do palácio, aproveitei o meu cartão da UniBo (ser estudante é tão bom!) e entrei de borla. E novamente me surpreendi com o conteúdo. Tenho mesmo de repensar a minha atitude em relação a muita coisa... O acervo do museu começou como o Wunderkammer de dois artistas do século XVIII, portanto tem desde estampas de santos feitas com penas de aves tropicais do México a sapatos de cortesã de Veneza em 1500. Depois das primeiras salas fica mais museu, com muitos túmulos e armaduras. O interior do edifício não é muito impressionante (tendo em conta o que já vi por estes lados), mas é labiríntico devido às sucessivas construções desde o século XII, o que torna a visita divertida, subindo e descendo escadas.
Cansada de tanta andança e tanta cultura, fui fazer o que os
italianos fazem e me sentar numa esplanada para o aperitivo. Fiquei a aproveitar o meu mojito até o gelo derreter (finalmente aprendi a pedir a bebida certa), e quando o sol se começou a pôr achei que era a minha deixa para ir para casa, planear um novo ataque museológico para amanhã.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
L'ultimo giorno di lavoro
Último dia de "estágio". Ao fim de quase um mês já sou expert no jogo da cedência de passagem. Durante "il giro" passamos por 11 portas, e há uma mudança constante de lugar na fila. Primeiro o Prof Chefe, que ao longo do trajecto cede 2 vezes a dianteira às senhoras. As posições seguintes são ocupadas alternadamente pelos seniores do serviço e pelas senhoras (enfermeiras chefes e visitantes, as médicas locais ficam para trás). Na 5ª porta eu costumo me adiantar para abrir e dar passagem ao séquito. Um pequeno jogo diário, que ilustra a hierarquia local.
De manhã, no bloco um bom presente de despedida, fundoplicatura laparoscópica numa criatura com 6 kg. Não é cirurgia neonatal, mas próxima o suficiente. Depois passei o resto do dia na consulta externa, chegando à conclusão que you can run but you can't hide: a pila mal lavada persegue o cirurgião pediátrico até ao fim do mundo. Todos temos o mesmo discurso formatado, repetido até à exaustão. Revi-me perfeitamente neste papel, noutra língua. No entanto, outros pormenores diferem. Como a caneca com o Papa Francisco na sala de tratamento, ou o crucifixo sobre a porta do gabinete da consulta. Apesar da presença católica ser evidente, não é intrusiva.
Fim da tarde, depois de um tempinho a brincar no simulador, arrumei a minha tralha e entreguei as chaves do gabinete. Tudo bem, já está na hora de ir embora.
Cansada e com fome, saí do hospital a correr, para conseguir ainda ir ao supermercado grande. Onde existem 9 variedades de tomate, das quais só provei 3, mas que são deliciosas. E surpreendentemente pouca variedade de pão. Mas compenso com os gressinos. Juntando mais uma mortadela, um queijo de cabra envelhecido e umas bolachas de nocciola estou pronta para uma noite a ver maus filmes e preguiçar até amanhã.
De manhã, no bloco um bom presente de despedida, fundoplicatura laparoscópica numa criatura com 6 kg. Não é cirurgia neonatal, mas próxima o suficiente. Depois passei o resto do dia na consulta externa, chegando à conclusão que you can run but you can't hide: a pila mal lavada persegue o cirurgião pediátrico até ao fim do mundo. Todos temos o mesmo discurso formatado, repetido até à exaustão. Revi-me perfeitamente neste papel, noutra língua. No entanto, outros pormenores diferem. Como a caneca com o Papa Francisco na sala de tratamento, ou o crucifixo sobre a porta do gabinete da consulta. Apesar da presença católica ser evidente, não é intrusiva.
Fim da tarde, depois de um tempinho a brincar no simulador, arrumei a minha tralha e entreguei as chaves do gabinete. Tudo bem, já está na hora de ir embora.
Cansada e com fome, saí do hospital a correr, para conseguir ainda ir ao supermercado grande. Onde existem 9 variedades de tomate, das quais só provei 3, mas que são deliciosas. E surpreendentemente pouca variedade de pão. Mas compenso com os gressinos. Juntando mais uma mortadela, um queijo de cabra envelhecido e umas bolachas de nocciola estou pronta para uma noite a ver maus filmes e preguiçar até amanhã.
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Il pignoletto
Dia blá no hospital. Programa operatório terminado às 12:30. Numa tentativa de fazer render os últimos dias dediquei 3 horas ao Campbell Walsh (tudo o que você sempre quis saber sobre refluxo vesico-uretral mas não teve paciência de ler) e depois fui para o simulador. Finalmente consegui um modelo mais ou menos fidedigno para a sutura da pieloplastia, mas ao fim de 45 minutos tive uma fúria e fui embora. Sem alguém para manobrar a câmara é difícil fazer algo mais complexo que a sutura simples, e hoje não me sentia com grande paciência- Tentando ser uma pessoa positiva, que não só vê o copo meio cheio
como o vê mesmo cheio, resolvi procurar uma enoteca para provar o pignoletto, um vinho branco da região de Bolonha. Acabei numa rua pequenina e quase medieval, cheia de bares e restaurantes, que fica a um quarteirão da Piazza Maggiore e que por alguma razão me tinha escapado até agora. Acabei sentando na Enoteca Historical Faccioli, numa mesa ao sol do fim da tarde, e bebi um belo pignoletto fresquinho e um sanduíche com a verdadeira mortadela (que também é originária de Bolonha). Aproveitei o fim da tarde para acabar mais um livro em italiano e chegar à conclusão que se quero linguagem simples mais vale comprar livros infantis que a porcaria que acabei de ler. Equivalente literário do Campari.
No caminho de volta a casa, por aquela que considero a minha rua, comecei a fazer a lista das despedidas. Sem grande mágoa, porque como dizia o poeta "que seja eterno enquanto dure". A melhor definição que encontrei para este período não foi estágio, ou férias disfarçadas, mas sim "trintasmus", termo cunhado por um dos amigos italianos. É uma espécie de Erasmus aos trinta, com mais trabalho, menos alcóol e comida de muito melhor qualidade, e em que depois do horário laboral ainda há energia para viver. Agora o desafio é conseguir manter o ritmo em casa...
terça-feira, 30 de maio de 2017
Aggionarmento di fine settimana
Passear com companhia tem outro encanto. Na sexta feira mostrei alguns dos meus locais favoritos: o museu do Palazzo Poggi, Basílica Santo Stefano, a Sala Borsa com o seu tecto fabuloso e ruínas romanas na cave, via San Vitale, Piazza Cavour. E conheci alguns novos, como o Palazzo Acursio, com as suas salas incrivelmente decoradas. Todo este percurso cultural foi ponteado por paragens gastronómicas. Almoço num favorito bolonhês, SfogliaRina, que me foi recomendado por vários locals e onde eu até já tinha comprado pasta fresca, mas não experimentado a parte de restaurante. Um gnocchi delicioso, com molho de pecorino, mas que apesar de tudo me deixou com saudades do gnocchi da minha mamma. Pausa para gelado na Lilasu, que para além de gelados deliciosos fica por baixo de uma arcada medieval lindíssima. Finalmente fui beber um aperitivo no Le Stanze, o bar que fica numa antiga capela, com o tecto e paredes decorados com frescos. No entanto, nem a beleza do local conseguiu tornar o meu cocktail palatável… A minha ideia de que Martini nunca pode correr mal morreu aí. E ligeiramente tocados fomos jantar à minha osteria favorita, del’Orsa, onde o jantar foi tão lauto que fui obrigada a dividir um tiramisu, porque não havia condições para mais.
Em tão pouco tempo já sinto a cidade como minha. Com os meus locais preferidos, os pequenos pormenores escondidos que descobri. Mas também é bom perceber que ainda há tanto para conhecer. Um mês não é suficiente para tudo, mas dá para muita coisa. E renova a vontade de quando voltar para casa manter o espírito de descoberta urbana, passear mais, sair mais, viver mais a cidade. Nada como ser turista na nossa própria cidade.
No sábado, day trip a Veneza. Decisão espontânea da noite anterior. Uma revisitação em idade adulta, para os dois. Graças ao train hub de Bolonha, duas horas de viagem no comboio baratinho (frecciarossa é só para ocasiões especiais). Por coincidência, a minha intrépida companheira de viagens anteriores também estava em Veneza. Nada como ser chique e combinar um café em frente ao Canal Grande.
A estação de Santa Lucia desemboca directamente no Canal Grande, de um modo quase teatral. Depois de 5 minutos a apreciar a beleza do local, voltei a entrar na estação para ir ao Tourism Office pedir um mapa. E
descobrir que eles realmente estão fartos de ser simpáticos para os turistas, porque me cobraram 3 euros. A cidade é maior do que eu me lembrava, mas mesmo assim pequena o suficiente para se desfrutar num dia, principalmente porque o plano era só andar perdidos nas ruas e resistir à tentação de entrar nos muitos museus.
Pouco depois encontramos a minha intrépida companheira de viagem e os seus companheiros de viagem. Decidimos juntar-nos ao plano deles e seguir para um free walking tour (conceito que não tenho encontrado nesta viagem...). Foi uma boa maneira de ver Veneza com outros olhos, e por outros recantos. O guia era um venentian born and raised, músico e jornalista, que fazia o tour de forma gratuita aos fins de semana e que todo recebido seria para uma organização que se ocupa de tornar a cidade mais transitável para pessoas em cadeiras de rodas. Nunca tinha pensado no assunto, mas realmente não deve ser fácil atravessar as mil pontes e pontesinhas e ruas estreitas... Portanto, logo ao início assegurou uma propina razoável.
Começamos no ghetto e dali fomos saltitando de bairro em bairro sem nos darmos conta, quase sempre por ruas quase desertas. Praça de São Marcos e outros hits não fazem parte do trajecto. A imagem de decadência que guardava da Serenissíma ainda se mantém, mas desta vez transmitiu-me uma sensação de decadência charmosa, quase propositada, e não de ruína inevitável como da outra vez.
Almoço na Piazza Margheritta, uma pasta com pesto que não envergonhava, acompanhada de um Lambrusco que até podia ser manhoso mas estava tão fresco e estava tanto calor que me pareceu néctar dos Deuses. Após a refeição, dissemos adeus à intrépida companheira de viagem e amigos, que seguiram para a ilha de Murano, enquanto nós fomos andando entre perdidos e achados até à Praça de
São Marcos. Não me recordava da Basílica ser tão ornada e bonita. Como bons turistas pelintras, ficamos sentados num degrau debaixo das arcadas, a apreciar a beleza e a atmosfera do local, mas sem vontade de largar 7 euros por um café. Com 2 horas até ao comboio fomos voltando sem pressas até à estação. Ainda tivemos tempo para para numa pracinha anónima, em frente a um pequeno canal, para beber o pior aperitivo de todos os tempos numa esplanada muito simpática. Se o Martini do dia anterior tinha sido mau, este Campari era muito pior. A única coisa boa que posso dizer é que a azeitona estava boa. Mas eu aprendo com os meus erros, da próxima vez bebo uma cerveja.
Domingo, dia de peregrinação. Depois de um pequeno almoço tardio reforçado por um gelado da Funivia, fizemos os 11km até ao Santuário della Madonna di San Luca. Caminhamos abrigados do sol, debaixo dos pórticos, com uma subida moderadamente agressiva no final. Deve ser um dos percursos dos weekend warriors de Bolonha, com muita gente a subir devagar e a descer depressa de fato de treino. Nós conseguimos a proeza de nos desencontrarmos do
ícone da Virgem, que desce numa procissão até à Igreja de São Pedro no centro da cidade a meio de Maio e regressa 15 dias depois. O que explicava as bandeiras vermelhas, as passadeiras e os altifalantes pelo caminho: a subida começava nesse dia às 16h (que foi mais ou menos quando lá chegamos) e atinge o seu destino por voltas das 20h. Paciência.... A vista do Santuário é impressionante, mas fica de "costas voltadas" para a cidade. Vêem-se os montes, florestas e prados à volta de Bolonha, mas não Bolonha em si. Para ver La Grassa é preciso pagar 5euros e subir mais 110 degraus, até à cúpula. Depois de uns minutos a recuperar o fôlego lá fomos nós. Vista do alto a cidade é tão pequenina! E tem mais torres do que estava à espera. Consegui identificar quase todos os pontos importantes, e me senti uma local.
Para recuperar desta aventura, seguimos para o centro (desta vez de autocarro, porque estávamos cansados e eu como local que quase sou conheço os percursos), para o Quadrilátero, à procura de um lanchinho. Que acabou por ser uma tábua de enchidos e queijos e uma garrafa de Lambrusco (Aperol e companhia já não me apanham!). Devidamente reconfortados, fomos jantar. Osteria Broccaindosso não desiludiu, tanto nas pastas como na sobremesa.
Segunda feira tive que ir trabalhar, porque de todos os dias em que podiam ter operado um Hirschsprung com tempo abdominal por via laparoscópica resolveram escolher o dia em que a cara metade estava cá. Humpf. Cirurgia interessante, mas mais laparo-assistida que laparoscópica...
Uma das vantagens de ter uma cara metade que partilha os meus interesses é que dá para conjugar turismo e trabalho. Portanto à tarde ele se juntou a mim e fomos assistir a uma cirurgia robótica. Muuuuuuiiiiiiitooooooo tempo para preparar o doente, pouco para operar. Assim ainda tivemos tempo de ir comer um gelado ao fim do dia. Infelizmente a Funivia estava fechada, e tivemos que nos contentar com um gelado de categoria inferior. Estou tramada quando voltar para casa.
À noite, para me vingar da feijoada brasileira preparada por uma italiana, fiz um jantar italiano em casa. Bruschetta com tomate e tortelinni in brodo. Para sobremesa, algo totalmente inusitado. Favas cruas com queijo. Parece estranho, mas é delicioso. Nem sabia que se podia comer favas assim. Talvez não funcione sempre, mas estas, apanhadas no fim de semana no quintal da casa dos pais do meu companheiro de casa estavam uma delícia, frescas e estaladiças. Realmente uma nova experiência gastronómica.
E hoje um dia agridoce, com direito a um último passeio acompanhada pela cidade, um bom almoço na Piazza Santo Stefano, e um gelado de despedida na Funivia. Passei o resto do dia no hsopital, no simulador, para não ter que ir para casa sozinha. Mas o que vale é que a melancolia também passa rápido. Há que aproveitar os poucos dias que restam por estes lados.
Your moment of zen:
No sábado, day trip a Veneza. Decisão espontânea da noite anterior. Uma revisitação em idade adulta, para os dois. Graças ao train hub de Bolonha, duas horas de viagem no comboio baratinho (frecciarossa é só para ocasiões especiais). Por coincidência, a minha intrépida companheira de viagens anteriores também estava em Veneza. Nada como ser chique e combinar um café em frente ao Canal Grande.
A estação de Santa Lucia desemboca directamente no Canal Grande, de um modo quase teatral. Depois de 5 minutos a apreciar a beleza do local, voltei a entrar na estação para ir ao Tourism Office pedir um mapa. E
descobrir que eles realmente estão fartos de ser simpáticos para os turistas, porque me cobraram 3 euros. A cidade é maior do que eu me lembrava, mas mesmo assim pequena o suficiente para se desfrutar num dia, principalmente porque o plano era só andar perdidos nas ruas e resistir à tentação de entrar nos muitos museus.
Pouco depois encontramos a minha intrépida companheira de viagem e os seus companheiros de viagem. Decidimos juntar-nos ao plano deles e seguir para um free walking tour (conceito que não tenho encontrado nesta viagem...). Foi uma boa maneira de ver Veneza com outros olhos, e por outros recantos. O guia era um venentian born and raised, músico e jornalista, que fazia o tour de forma gratuita aos fins de semana e que todo recebido seria para uma organização que se ocupa de tornar a cidade mais transitável para pessoas em cadeiras de rodas. Nunca tinha pensado no assunto, mas realmente não deve ser fácil atravessar as mil pontes e pontesinhas e ruas estreitas... Portanto, logo ao início assegurou uma propina razoável.
Começamos no ghetto e dali fomos saltitando de bairro em bairro sem nos darmos conta, quase sempre por ruas quase desertas. Praça de São Marcos e outros hits não fazem parte do trajecto. A imagem de decadência que guardava da Serenissíma ainda se mantém, mas desta vez transmitiu-me uma sensação de decadência charmosa, quase propositada, e não de ruína inevitável como da outra vez.
Almoço na Piazza Margheritta, uma pasta com pesto que não envergonhava, acompanhada de um Lambrusco que até podia ser manhoso mas estava tão fresco e estava tanto calor que me pareceu néctar dos Deuses. Após a refeição, dissemos adeus à intrépida companheira de viagem e amigos, que seguiram para a ilha de Murano, enquanto nós fomos andando entre perdidos e achados até à Praça de
São Marcos. Não me recordava da Basílica ser tão ornada e bonita. Como bons turistas pelintras, ficamos sentados num degrau debaixo das arcadas, a apreciar a beleza e a atmosfera do local, mas sem vontade de largar 7 euros por um café. Com 2 horas até ao comboio fomos voltando sem pressas até à estação. Ainda tivemos tempo para para numa pracinha anónima, em frente a um pequeno canal, para beber o pior aperitivo de todos os tempos numa esplanada muito simpática. Se o Martini do dia anterior tinha sido mau, este Campari era muito pior. A única coisa boa que posso dizer é que a azeitona estava boa. Mas eu aprendo com os meus erros, da próxima vez bebo uma cerveja.
Domingo, dia de peregrinação. Depois de um pequeno almoço tardio reforçado por um gelado da Funivia, fizemos os 11km até ao Santuário della Madonna di San Luca. Caminhamos abrigados do sol, debaixo dos pórticos, com uma subida moderadamente agressiva no final. Deve ser um dos percursos dos weekend warriors de Bolonha, com muita gente a subir devagar e a descer depressa de fato de treino. Nós conseguimos a proeza de nos desencontrarmos do
ícone da Virgem, que desce numa procissão até à Igreja de São Pedro no centro da cidade a meio de Maio e regressa 15 dias depois. O que explicava as bandeiras vermelhas, as passadeiras e os altifalantes pelo caminho: a subida começava nesse dia às 16h (que foi mais ou menos quando lá chegamos) e atinge o seu destino por voltas das 20h. Paciência.... A vista do Santuário é impressionante, mas fica de "costas voltadas" para a cidade. Vêem-se os montes, florestas e prados à volta de Bolonha, mas não Bolonha em si. Para ver La Grassa é preciso pagar 5euros e subir mais 110 degraus, até à cúpula. Depois de uns minutos a recuperar o fôlego lá fomos nós. Vista do alto a cidade é tão pequenina! E tem mais torres do que estava à espera. Consegui identificar quase todos os pontos importantes, e me senti uma local.
Para recuperar desta aventura, seguimos para o centro (desta vez de autocarro, porque estávamos cansados e eu como local que quase sou conheço os percursos), para o Quadrilátero, à procura de um lanchinho. Que acabou por ser uma tábua de enchidos e queijos e uma garrafa de Lambrusco (Aperol e companhia já não me apanham!). Devidamente reconfortados, fomos jantar. Osteria Broccaindosso não desiludiu, tanto nas pastas como na sobremesa.
Segunda feira tive que ir trabalhar, porque de todos os dias em que podiam ter operado um Hirschsprung com tempo abdominal por via laparoscópica resolveram escolher o dia em que a cara metade estava cá. Humpf. Cirurgia interessante, mas mais laparo-assistida que laparoscópica...
Uma das vantagens de ter uma cara metade que partilha os meus interesses é que dá para conjugar turismo e trabalho. Portanto à tarde ele se juntou a mim e fomos assistir a uma cirurgia robótica. Muuuuuuiiiiiiitooooooo tempo para preparar o doente, pouco para operar. Assim ainda tivemos tempo de ir comer um gelado ao fim do dia. Infelizmente a Funivia estava fechada, e tivemos que nos contentar com um gelado de categoria inferior. Estou tramada quando voltar para casa.
À noite, para me vingar da feijoada brasileira preparada por uma italiana, fiz um jantar italiano em casa. Bruschetta com tomate e tortelinni in brodo. Para sobremesa, algo totalmente inusitado. Favas cruas com queijo. Parece estranho, mas é delicioso. Nem sabia que se podia comer favas assim. Talvez não funcione sempre, mas estas, apanhadas no fim de semana no quintal da casa dos pais do meu companheiro de casa estavam uma delícia, frescas e estaladiças. Realmente uma nova experiência gastronómica.
E hoje um dia agridoce, com direito a um último passeio acompanhada pela cidade, um bom almoço na Piazza Santo Stefano, e um gelado de despedida na Funivia. Passei o resto do dia no hsopital, no simulador, para não ter que ir para casa sozinha. Mas o que vale é que a melancolia também passa rápido. Há que aproveitar os poucos dias que restam por estes lados. Your moment of zen:
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Padiglione 13
Dia cirúrgico sem grandes emoções. Vi mais um hipospadias, muito bonitinho, com algumas variações da técnica que usamos na casa mãe. Dada a noitada não programada de ontem não tive tempo de ir ao supermercado, portanto hoje não levei almoço. E logo hoje
decidiram não encomendar a pasta magnífica que vejo toda a gente a almoçar enquanto eu como saladinha (tenho que contrabalançar os gelados). Portanto lá fui sozinha ao pavilhão 16 (mais um!), comprar uma sandocha ao bar. O complexo hospitalar é
realmente agradável. Não admira que as pessoas aproveitem para correr dentro do hospital: seguro, iluminado, piso regular e agradável, cheio de árvores. Como estava um dia bonito resolvi aproveitar o local e almoçar num banco à frente do hospital, por baixo de umas árvores. Acabei por ter direito a um episódio de BBC Vida selvagem ao vivo. Primeiro reparei num passarão que estava a saltitar por baixo da árvore, quase do tamanho de uma gaivota. Castanho, mas com uma risca azul interessante nas asas, e um pulular cheio de energia. Andou para a frente e para trás, e zás, de repente saiu num vôo picado até à outra árvore e
abocanhou uma largarta verde gigante que eu não tinha visto, apesar de já ter também passado 5 minutos a olhar para a árvore (não tinha literatura para me acompanhar). Durante 1 minuto a lagarta se esforça para fugir mas acabou por virar almoço. O passarão voltou aos seu pulos, e eu perdi o apetite.
Aproveitando o dia sem grande interesse no bloco fui para o playground mais cedo, onde voltei a encontrar a senhora da limpeza, que desta vez fez uma piadinha sobre como me apanha sempre a cantar. Só não comentou sobre a qualidade da minha voz...
Com todos os objectivos laborais do dia cumpridos, saí do hospital em direcção ao centro da cidade para ir à SfogliaRina, uma instituição da pasta fresca bolonhesa. Ainda ponderei comprar uns tortelonnis, mas são mais difíceis de fazer do que estava à espera, pelo que me fiquei pelos tortelinnis. Descobri também que tem um mini-restaurante nas traseiras da loja, portanto já sei onde vou almoçar com a cara metade amanhã.No caminho para casa, mais uma paragem na gelataria da Piazza Cavour, para continuar a trabalhar num outro objectivo: provar todos os sabores da gelataria. Eight down, 12 to go. I am a woman on a mission.
Regresso a casa acompanhada pelas histórias do podcast. Depois de tanto tempo a procurar contadores de estórias encontrei um manancial sem fim.
E agora vou a correr para o aeroporto, matar saudades da cara metade que está quase a aterrar.
decidiram não encomendar a pasta magnífica que vejo toda a gente a almoçar enquanto eu como saladinha (tenho que contrabalançar os gelados). Portanto lá fui sozinha ao pavilhão 16 (mais um!), comprar uma sandocha ao bar. O complexo hospitalar é
realmente agradável. Não admira que as pessoas aproveitem para correr dentro do hospital: seguro, iluminado, piso regular e agradável, cheio de árvores. Como estava um dia bonito resolvi aproveitar o local e almoçar num banco à frente do hospital, por baixo de umas árvores. Acabei por ter direito a um episódio de BBC Vida selvagem ao vivo. Primeiro reparei num passarão que estava a saltitar por baixo da árvore, quase do tamanho de uma gaivota. Castanho, mas com uma risca azul interessante nas asas, e um pulular cheio de energia. Andou para a frente e para trás, e zás, de repente saiu num vôo picado até à outra árvore e
abocanhou uma largarta verde gigante que eu não tinha visto, apesar de já ter também passado 5 minutos a olhar para a árvore (não tinha literatura para me acompanhar). Durante 1 minuto a lagarta se esforça para fugir mas acabou por virar almoço. O passarão voltou aos seu pulos, e eu perdi o apetite.
Aproveitando o dia sem grande interesse no bloco fui para o playground mais cedo, onde voltei a encontrar a senhora da limpeza, que desta vez fez uma piadinha sobre como me apanha sempre a cantar. Só não comentou sobre a qualidade da minha voz...
Com todos os objectivos laborais do dia cumpridos, saí do hospital em direcção ao centro da cidade para ir à SfogliaRina, uma instituição da pasta fresca bolonhesa. Ainda ponderei comprar uns tortelonnis, mas são mais difíceis de fazer do que estava à espera, pelo que me fiquei pelos tortelinnis. Descobri também que tem um mini-restaurante nas traseiras da loja, portanto já sei onde vou almoçar com a cara metade amanhã.No caminho para casa, mais uma paragem na gelataria da Piazza Cavour, para continuar a trabalhar num outro objectivo: provar todos os sabores da gelataria. Eight down, 12 to go. I am a woman on a mission.
Regresso a casa acompanhada pelas histórias do podcast. Depois de tanto tempo a procurar contadores de estórias encontrei um manancial sem fim.
E agora vou a correr para o aeroporto, matar saudades da cara metade que está quase a aterrar.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Il finochietto
Dia agitado no hospital. Cirurgia electiva cancelada às 10:30 por causa de uma urgência neonatal. Que só entrou na sala às 13:30. Nos entretantos surgiu outra urgência neonatal, que acabou por ser operada nos cuidados intensivos neonatais, onde a criatura já estava internada. O que acabou por ser uma oportunidade de conhecer outro pavilhão do Hospital. A UCIN fica na Maternidade, edificio vizinho ao da Pediatria. Tem várias salas, mas é pouco ampla, 4 incubadoras por quarto e um corredor estreitinho. Depois ainda fui de "shadow" ver um doente internado na Cardiologia Pediátrica. Este pavilhão ja conhecia, é o mesmo da RM. Ainda cheira a tinta, de tão novo. Aqui sim os quartos são enormes, duas camas por quarto, corredores onde dá para jogar futebol. É a diferença entre o "hospital histórico", construído há cem anos e reaproveitado desde então, e o "hospital moderno". Mesma sensação que tive quando estive no Hospital de Braga: espaço. Bem, já conheço 4 pavilhões do hospital, só faltam outros 15...
De tarde fui para o playground. Numa das gavetas encontrei um modelo para anastomose intestinal que funciona bem para a sutura contínua, e acabei por me divertir mais de uma hora ao som de uma playlist fabulosa do Spotify, repleta de Motown animada. Estava no meio da minha melhor prestação tanto cirurgíca como musical, a cantar ao berros junto com a Aretha (R E S P E C T!), quando ouvi uma risada atrás de mim: fui surpreendida pela senhora da limpeza, que ao que parecevnão está habituada ao karaoke cirúrgico e só se ria e me pedia desculpas. Tomei como sinal de que era hora de ir embora e saí cedíssimo, às 18:30.
Apesar do calor (30o), resolvi tentar ir ao correios, no centro da cidade. Para minha alegria ainda estavam abertos às 18:50. Tirei uma senha e fiquei sentadinha a ouvir musica, à espera que despachassem as 14 senhas antes da minha. Passado uns minutos noto que algo se está a passar, tiro os fones e percebo que está um grupo de pessoas aos berros com um dos senhores dos correios. Pensei bolas, estes italianos falam mesmo alto, voltei a por os fones e continuei à espera. Até que um senhor me bateu no ombro e avisou que os correios estavam fechados. Basicamente fecham às 19, mas por alguma razão a máquina não parou de distribuir senhas mais cedo, e era por isso que as pessoas estavam tão irritadas. Ainda não é desta que os postais seguem...
Entretanto, recebi um convite muito agradável para ir jantar a casa dos amigos italianos do meu companheiro de casa. Tendo em conta que já estava no centro, recebi indicações sobre como lá chegar de autocarro. Sou basicamente uma local. Portanto, depois de comer um gelado como antipasto (estava em frente à melhor gelataria onde alguma vez fui, parecia falta de educação deixar passar a oportunidade), segui para fora da muralha.
Os amigos moram ao lado do estádio, mesmo em frente à subida para a Basílica de San Lucca (onde pretendo ir este fim‑de‑semana), num rés do chão com um quintal delicioso, ideal para um dia quente como este. Para além dos amigos, um casal italo-australiano que estava de visita e uma amiga brasileira que está aqui num workshop de teatro. Vim para Bolonha comer feijoada preparada por uma italiana ( que estava muito boa) e brigadeiro.
Entre as várias ervas aromáticas que perfumavam o pequeno quintal descobri um manjerico (que eles chama basilico greco e usam nas saladas), basilico nero (mangericão com folhas de cor bordausx escuro, quase preto), e finochietto, que é use nome de afastador cirúrgico, mas na realidade é funcho. A dona da casa, que é um amor de pessoa, ainda me perguntou se eu queria levar umas sementes para plantar. Com o meu "black thumb of death" não me pareceu grande idéia.
Noite super agradável, transitando sem querer entre o italiano e o inglês, com algum português pelo meio. Assim como eu durante anos repeti as minhas duas palavras favoritas de italiano (aprendida algures durante o Erasmus valenciano num contexto que não me recordo), pipistrello e accendino, eles um dia irão surpreender um amigo português com "feijoada", "garfo" e "jabuticaba".
De tarde fui para o playground. Numa das gavetas encontrei um modelo para anastomose intestinal que funciona bem para a sutura contínua, e acabei por me divertir mais de uma hora ao som de uma playlist fabulosa do Spotify, repleta de Motown animada. Estava no meio da minha melhor prestação tanto cirurgíca como musical, a cantar ao berros junto com a Aretha (R E S P E C T!), quando ouvi uma risada atrás de mim: fui surpreendida pela senhora da limpeza, que ao que parecevnão está habituada ao karaoke cirúrgico e só se ria e me pedia desculpas. Tomei como sinal de que era hora de ir embora e saí cedíssimo, às 18:30.
Apesar do calor (30o), resolvi tentar ir ao correios, no centro da cidade. Para minha alegria ainda estavam abertos às 18:50. Tirei uma senha e fiquei sentadinha a ouvir musica, à espera que despachassem as 14 senhas antes da minha. Passado uns minutos noto que algo se está a passar, tiro os fones e percebo que está um grupo de pessoas aos berros com um dos senhores dos correios. Pensei bolas, estes italianos falam mesmo alto, voltei a por os fones e continuei à espera. Até que um senhor me bateu no ombro e avisou que os correios estavam fechados. Basicamente fecham às 19, mas por alguma razão a máquina não parou de distribuir senhas mais cedo, e era por isso que as pessoas estavam tão irritadas. Ainda não é desta que os postais seguem...
Entretanto, recebi um convite muito agradável para ir jantar a casa dos amigos italianos do meu companheiro de casa. Tendo em conta que já estava no centro, recebi indicações sobre como lá chegar de autocarro. Sou basicamente uma local. Portanto, depois de comer um gelado como antipasto (estava em frente à melhor gelataria onde alguma vez fui, parecia falta de educação deixar passar a oportunidade), segui para fora da muralha.
Os amigos moram ao lado do estádio, mesmo em frente à subida para a Basílica de San Lucca (onde pretendo ir este fim‑de‑semana), num rés do chão com um quintal delicioso, ideal para um dia quente como este. Para além dos amigos, um casal italo-australiano que estava de visita e uma amiga brasileira que está aqui num workshop de teatro. Vim para Bolonha comer feijoada preparada por uma italiana ( que estava muito boa) e brigadeiro.
Entre as várias ervas aromáticas que perfumavam o pequeno quintal descobri um manjerico (que eles chama basilico greco e usam nas saladas), basilico nero (mangericão com folhas de cor bordausx escuro, quase preto), e finochietto, que é use nome de afastador cirúrgico, mas na realidade é funcho. A dona da casa, que é um amor de pessoa, ainda me perguntou se eu queria levar umas sementes para plantar. Com o meu "black thumb of death" não me pareceu grande idéia.
Noite super agradável, transitando sem querer entre o italiano e o inglês, com algum português pelo meio. Assim como eu durante anos repeti as minhas duas palavras favoritas de italiano (aprendida algures durante o Erasmus valenciano num contexto que não me recordo), pipistrello e accendino, eles um dia irão surpreender um amigo português com "feijoada", "garfo" e "jabuticaba".
terça-feira, 23 de maio de 2017
La cucitrice
Dia totalmente laparsocópico, nada extremamente diferenciado mas interessante. Aqui a abordagem laparoscópica é tão comum como a aberta, ninguém se chateia, o material é montado com a mesma celeridade e à vontade que a mesa dos instrumentos. Mas só os mais velhos (e com isso me refiro à geração dos cinquenta para cima) é que tem verdadeiro à vontade. Os mais novos não tem o mesmo desempenho. Também, como é possível, se não operam? Mas trabalham muito. Eu chego às 07: e saio depois das 19 e os internos e especialistas recentes já lá estão quando eu chego e ainda lá ficam quando eu saio. E estão de banco a cada 4 dias. Ontem uma das internas mais novas me dizia que eles aprendem a operar observando os mais velhos. Lógico, e totalmente válido e indispensável. E o gesto, a "memória muscular"? Há coisas que só se aprende fazendo. A casa mãe tem os seus defeitos, mas apesar de tudo ainda vai dando oportunidades à malta jovem.
Depois do final do programa cirúrgico (e de uma biópsia renal por retroperitoneoscopia de urgência) fui brincar para o meu playground. E não gostei quando cheguei à sala dos simuladores e estava lá outra pessoa, no "meu" simulador - aquele que já está ajustado à minha altura e tinha preparado o meu modelo para suturas contínuas. Um interno intruso de Urologia. Rapaz simpático, acabamos por conversar um pouco, e confirmar a minha suspeita que nenhum interna opera muito por estes lados, independente da especialidade. Disse uma coisa interessante: que faziam muita endourologia, alguma laparoscopia, até robótica, mas nas cirurgias "open" os internos eram sempre 2º ou 3º ajudante. Ou seja, já brincou com o DaVinci, mas nunca fez uma lombotomia. Não posso deixar de pensar que isto é uma inversão dos princípios,,,
A minha tentativa de modelo para pieloplastia baseada num artigo
em que utilizavam uma luva falhou miseravelmente. Tentar suturas uma luva azul com fio Ethibond 5-0 azul com câmara fixa não é fácil. Amanhã tento novamente, desta vez com a luva de cozinha. Acabei por experimentar outros materiais, mas nenhum funcionou muito bem. Mesmo assim acabei por passar hora e meia a brincar às suturas. Um dos objectivos desta temporada é aprender a segurar os instrumentos com mais suavidade. Hoje para não variar ainda tenho parestesias no 3º dedo da mão esquerda...
Uma boa novidade: encontrei queijo sem lactose! O que é um
espetáculo, tendo em conta que estou a racionar os comprimidos de lactase. A parte má é que como todo o queijo sem lactose não é propriamente muito saboroso... Acho que prefiro continuar a viver perigosamente...
Depois do final do programa cirúrgico (e de uma biópsia renal por retroperitoneoscopia de urgência) fui brincar para o meu playground. E não gostei quando cheguei à sala dos simuladores e estava lá outra pessoa, no "meu" simulador - aquele que já está ajustado à minha altura e tinha preparado o meu modelo para suturas contínuas. Um interno intruso de Urologia. Rapaz simpático, acabamos por conversar um pouco, e confirmar a minha suspeita que nenhum interna opera muito por estes lados, independente da especialidade. Disse uma coisa interessante: que faziam muita endourologia, alguma laparoscopia, até robótica, mas nas cirurgias "open" os internos eram sempre 2º ou 3º ajudante. Ou seja, já brincou com o DaVinci, mas nunca fez uma lombotomia. Não posso deixar de pensar que isto é uma inversão dos princípios,,,
A minha tentativa de modelo para pieloplastia baseada num artigo
em que utilizavam uma luva falhou miseravelmente. Tentar suturas uma luva azul com fio Ethibond 5-0 azul com câmara fixa não é fácil. Amanhã tento novamente, desta vez com a luva de cozinha. Acabei por experimentar outros materiais, mas nenhum funcionou muito bem. Mesmo assim acabei por passar hora e meia a brincar às suturas. Um dos objectivos desta temporada é aprender a segurar os instrumentos com mais suavidade. Hoje para não variar ainda tenho parestesias no 3º dedo da mão esquerda...
Uma boa novidade: encontrei queijo sem lactose! O que é um
espetáculo, tendo em conta que estou a racionar os comprimidos de lactase. A parte má é que como todo o queijo sem lactose não é propriamente muito saboroso... Acho que prefiro continuar a viver perigosamente...
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Veni, vidi, DaVinci
Manhã urológica: dois hipospadias distais seguidos. Snodgrass abastardado, com dissecção ventral mínima e reconstrução do prepucio. Ficaram bonitos, mas não me convenceram.
Esta tarde finalmente conheci a outra sala e o robot, que estão no bloco central onde operam todas as especialidades excepto os meninos mimados da pediátrica e cardiotoracica. Ter uma casinha pequenina, isolada e clássica como a nossa é simpático, mas viver num arranha-céus high tech cheio de vizinhos porreiros e gadgets também deve ser bom. Um bloco novo, construído de origem, com 14 salas amplas, um armário de material com tudo o que a Covidien vende, um robot. No caminho para a sala de Cirurgia Pediátrica passei por dois transplantes. Deve ser bom viver no futuro…
Quanto ao robot propriamente dito, inicialmente estava envergonhado, com os braços fechados, tentando passar despercebido no meio da sala. A parte inicial da cirurgia é como outra cirurgia laparoscópia qulaquer. Depois dos trocares colocados, começa a brincadeira. O robot começa a fazer barulhinhos de robot (claramente escolhidos por essa razão, duvido que sejam mesmo necessário), e se posiciona ao lado da marquesa, de acordo com a posição previamente programada. Depois os braços são ligados aos trocares e aos instrumentos, e a bola passa para o cirurgião na consola, que controla os movimentos de tudo. A imagem em 3D é realmente boa, e a posição parece muito confortável. A cirurgia de hoje foi simples, mais para manterem mão no robot do que propriamente para aproveitar as suas capacidades. Mesmo assim, gostei. Devo confessar que para mim uma das grandes vantagens é o operar sentado...
Depois da demonstração maravilhosa, fui brincar para o centro de simulação. Hoje ainda continuei nos nós, amanhã pretendo experimentar uma idéia manhosa.
Ao fim da tarde, com a perspectiva de correr ou lavar roupa, resolvi ser dona de casa. E os meus pézinhos ainda estão a recuperar dos km do final de semana...
Depois da demonstração maravilhosa, fui brincar para o centro de simulação. Hoje ainda continuei nos nós, amanhã pretendo experimentar uma idéia manhosa.
Ao fim da tarde, com a perspectiva de correr ou lavar roupa, resolvi ser dona de casa. E os meus pézinhos ainda estão a recuperar dos km do final de semana...
domingo, 21 de maio de 2017
La picola spiaggia
Pela primeira vez em pelo menos 10 anos usei o mesmo gel de banho/shampoo para tomar banho, lavar a cara e o cabelo. Vida minimalista é assim, e o cabelo curto ajuda. Inicialmente estava muito feliz com o resultado, a pensar que a indústria dos produtos capilares na realidade era uma farsa desnecessária inventada por publicitários. Até que me vi ao espelho, e compreendi porque que é na realidade uma indústria bilionária: porque é necessária. Ainda bem que vou passar o dia de chapéu.
Resolvi que ao invés de passear por Nápoles, plano inicial, iria aproveitar a manhã para ir a Sorrento e à tarde às ruínas de Ercolano. Na minha cabeça imaginei que a viagem no Circumvesuviana seria calma e contemplativa, a ver a bacia do mediterrâneo e a ter pensamentos elevados, porque seguramente às 09h da manhã de domingo só haveria turistas até Pompéia, e eu iria seguir caminho. Erro crasso. Ao que parece a juventude digamos menos polida de Nápoles pelos vistos gosta de apanhar o comboio para ir à praia no fim de semana. Portanto o comboio estava repleto de adolescentes barulhentos com maus cabelos e pouco estilo. Pelo que percebi o must have look para rapazes é rapado de ambos os lados com um crista de jogador de futebol no meio e para as meninas é rapado na nuca e o resto com tranças. Jovens que ainda não devem atingiram o estádio V de Tanner com tatuagens. Então é assim que se sente uma velha do Restelo no meio da juventude… Para meu gáudio sairam 4 paragens antes de Sorrento, porque senão teriam arruinado de vez a minha imagem classy da cidade.
Sorrento exsuda um charme anos 30, pelo aspecto dos edifícios e os hotéis com nomes com Excelcior Vittoria e Grand Hotel Royal. E porque deve ter sido nessa década que nasceram a maioria dos visitantes. A cidade é pequena, e rapidamente se atravessa a pé. O que me surpreendeu foi que para uma cidade balnear vê-se muito pouca praia. Primeiro porque a cidade está numa escarpa, e a praia está
láááááá em baixo. Quer dizer, aquilo que passa por praia por aqui: meio metro de areia e depois umas passadeiras flutuantes com espreguicadeiras. Segundo, porque basicamente todo o terreno à beira mar está ocupado por casas apalaçadas e hotéis. Só há um ou outro miradouro para ver o mar. Mas a vista vale a pena, as escarpas com as casas encavalitadas no meio do verde da vegetação, toda a baía mediterrânea até Nápoles, o Vesúvio em todo o seu esplendor. Percebo o fascínio.
láááááá em baixo. Quer dizer, aquilo que passa por praia por aqui: meio metro de areia e depois umas passadeiras flutuantes com espreguicadeiras. Segundo, porque basicamente todo o terreno à beira mar está ocupado por casas apalaçadas e hotéis. Só há um ou outro miradouro para ver o mar. Mas a vista vale a pena, as escarpas com as casas encavalitadas no meio do verde da vegetação, toda a baía mediterrânea até Nápoles, o Vesúvio em todo o seu esplendor. Percebo o fascínio.
Depois de ver a vista bonita, fui ver o resto da cidade. A zona velha, que são duas ruas cheias de lojas de bugigangas turísticas, onde o cheiro do limoncello é omnipresente e enjoativo. A zona nova, que também não são muito mais ruas. E pronto. Tive tempo de ver as exposições da Vila Fiorentina: fotografias da Sophia Loren (dela, não tiradas por ela) e esculturas de um senhor chamado Mário Pugliese, que entre outras coisas faz uns insectos gigantes de metal e cerâmica com pequenos detalhes incrustados que eu compraria se tivesse dinheiro.
Encontrei sem querer a Basilica de Santo Antonino, onde deixam como agradecimento ao santo efigies em prata (parece-me) daquilo que ele curou: pernas, intestinos, tórax, corpo inteiro… Uma versão em metal das oferendas em cera ao velho Sousa Martins. Descobri o meu próximo carro, um Fiat dos antigos no meu azul preferido. Pelo meio paragem para comer/beber um caffè crema, uma espécie de café gelado cremoso. Ainda ponderei beber café no bar do Hotel Excelcior Vittoria, porque imaginei que a vista era fabulosa, mas com o cabelo assim tão manhoso não me senti à altura. Almocei no restaurante sugerido pela minha professora de italiano, que a dada altura foi guia turística nesta zona. Sem vista, mas muito agradável, e com um aspecto tão cuidado que me arrependi de ter entrado pela porta dos fundos sem ver o menu e os preços primeiro. Quando chegou a carta suspirei de alívio, ao menos as pizzas eram a um preço acessível. E maravilhosas. Para compensar o mau dia gastronómico anterior. De sobre um mignon baba, supostamente especialidade da zona.
Encontrei sem querer a Basilica de Santo Antonino, onde deixam como agradecimento ao santo efigies em prata (parece-me) daquilo que ele curou: pernas, intestinos, tórax, corpo inteiro… Uma versão em metal das oferendas em cera ao velho Sousa Martins. Descobri o meu próximo carro, um Fiat dos antigos no meu azul preferido. Pelo meio paragem para comer/beber um caffè crema, uma espécie de café gelado cremoso. Ainda ponderei beber café no bar do Hotel Excelcior Vittoria, porque imaginei que a vista era fabulosa, mas com o cabelo assim tão manhoso não me senti à altura. Almocei no restaurante sugerido pela minha professora de italiano, que a dada altura foi guia turística nesta zona. Sem vista, mas muito agradável, e com um aspecto tão cuidado que me arrependi de ter entrado pela porta dos fundos sem ver o menu e os preços primeiro. Quando chegou a carta suspirei de alívio, ao menos as pizzas eram a um preço acessível. E maravilhosas. Para compensar o mau dia gastronómico anterior. De sobre um mignon baba, supostamente especialidade da zona.
Ainda sonolenta do almoço menos que ligeiro voltei à estação, para apanhar o Circumvesuviana em direcção a Ercolano Scavi. Pela primeira vez consegui ir sentada. A paisagem inicialmente é muito bonita, mar de um lado, montanhas verdes no outro, mas rapidamente passa a construções degradadas e estações recobertas de graffiti. Os arredores de Nápoles não são bonitos, e os habitantes também não me deixaram grande impressão. Vi deitarem lixo para o chão, pela janela do comboio, sem nenhum cuidado. A imagem do italiano glamouroso claramente não se encaixa aqui. E também não são simpáticos, mesmo quando educados falam e agem de modo agressivo. Tirando Sorrento nem mesmo em Pompéia, local turístico por excelência, me senti bem. Não me imagino a voltar para estes lados.
Bem, o Ercolaneo. É o vizinho mais pequeno e desconhecido de Pompéia. Tal com esta foi soterrado pela erupção de 79 ad, mas enquanto em Pompéia foram as cinzas em Ercolaneo foi mesmo lava. Que conservou a cidade de forma diferente. Assim que cheguei às ruínas fiquei surpreendida com o facto de estarem mesmo no meio das casas. E da profundidade a que foram soterradas. Estão
basicamente numa cratera escavada a quase 20 metros de profundidade. Parece mesmo uma cidade fantasma desenterrada.
basicamente numa cratera escavada a quase 20 metros de profundidade. Parece mesmo uma cidade fantasma desenterrada.
Desta vez sem tempo para visitas guiadas resolvi alugar o audioguia. Assim que comecei a visita arrependi-me de não ter feito o mesmo em Pompéia para a 2@ parte da minha visita. A informação é clara e interessante, e a qualidade do áudio surpreendentemente boa. No entanto, como em Pompéia, metade dos locais sugeridos para visitar estavam fechados. Mesmo assim deu para ver coisas lindíssimas. Os frescos são bonitos, mas o que realmente me impressionou foram
os mosaicos. Neste momento já me sinto uma verdadeira especialista na arquitectura do período. Até posso dizer que o meu LeeMobile original não tinha um buraco no tecto mas sim um compluuium.
os mosaicos. Neste momento já me sinto uma verdadeira especialista na arquitectura do período. Até posso dizer que o meu LeeMobile original não tinha um buraco no tecto mas sim um compluuium.
Das ruínas de volta à Nápoles moderna. Mais uma viagem no Circumvesuviana, a última. Cheguei sem tempo para ver o que fosse da cidade, mas ainda conseguir comprar sfogliatellas para levar para o meu companheiro de casa. E dois novos livros em italiano para me fazerem companhia na viagem para cada, que o primeiro já acabou. Igualmente básicos, para poder entender a ideia geral mesmo sem perceber os pormenores. Ainda não é desta que leio Umberto Eco no original...
sábado, 20 de maio de 2017
Un caffè e una sfogliatella
Viajante que se preze levanta-se cedo. Às quatro e meia da manhã estava de pé, mochila pronta e lancheira pronta (viajante budget leva sempre comida para pelo menos um lanchinho). Tudo de acordo com o plano, para apanhar o autocarro das 05:10 para a estação e o comboio das 06:05 para Nápoles. Porque entre a POC e a personificar tipo A nada é deixado ao acaso. Nada como overplan para ser depois lembrada da máxima “ se queres fazer o universo rir-se conta-lhe os teus planos”. Yup. Não contei com o facto de sábado dia 20 de Maio ser a festa da freguesia, com a rua principal fechada e o trânsito desviado. A minha manhã tranquila afinal começou comigo a correr até às urgências do hospital porque segundo o meu raciocínio à porta de um SU há sempre táxis. Bem não aqui, às cinco e quinze da manhã. Acabei por entrar num hotel à frente do hospital e pedir para me chamarem um táxi. O senhor não estava muito esperançoso de que algum aparecesse a estas horas. Muito arrependida de não ter instalado a aplicação Uber-like bolonhesa (sim, Waas, you were right), fiquei 15 minutos à porta , esperando o táxi que supostamente estava a 4 minutos de distância. Tudo bem, ainda dentro da hora. Cheguei à estação com 15 minutos de antecedência, e ainda bem. Eu pensava que já conhecia a estação de Bolonha. Afinal não. É gigante, um aeroporto em forma de estação, com 4 zonas de partida diferentes. Fiz o caminho em passo de corrida e consegui chegar mesmo em cima da hora. Nota mental: não substimar estações de comboio.
Os 109 euros do bilhete são justificados. O Frecciarossa é realmente confortável, o suficiente para dormir quase de seguida as 4 horas até Nápoles.
Uma vez aí, seguindo a recomendação de um dos italianos, saí da estação e fui directa ao café México beber um café e comer uma sfogliatella. O café é fabuloso, feito numa espécie de prensa, curtinho mas bom. De seguida voltei para a estação, a caminho de Pompéia. O pouco que conheci da cidade pareceu-me suja, malcuidada e não muito amigável. Nunca tive muito boa impressão de Nápoles, mas uma conversa recente com um apaixonado da cidade me fez ter vontade de lhe dar uma segunda opção. Do que vi até agora não sei se vou conseguir…
De volta à estação, para o enxame de turistas que é a linha Circumvesuviana, que vai até Pompéia. Por momentos ainda sonhei ver a paisagem da janela do comboio, mas a experiência é mais semelhante ao suburbano para Sintra às 18 horas do que uma das grandes viagens de comboio. E o pouco que eu consegui ver da janela estava sujo e graffitado.
Finalmente em Pompéia. Primeira paragem hotel, para tirar peso da mala. Tendo em conta que iria passar o fds on the go com a mochila às costas reduzi a bagagem para o mínimo essencial. Pareço uma daquelas nórdicas que dá a volta ao mundo com uma mochila menor do que a que levo para os bancos. Nécessaire minimalista (consigo sobreviver 2 dias usando protector dar como creme), muda de roupa interior e de tshirt e pronto. Afinal o tempo que perdi lendo como declutter my life serve para alguma coisa.
Às duas finalmente entro nas ruínas, numa visita guiada das baratinhas (por muito que seja agradável, o guia particular pesa demasiado no orçamento). Embora tivesse perspectivas elevadas, a visita foi ainda melhor. Realmente o nível de preservação das ruínas é incrível. Os frescos, os mosaicos, os estuques. E tudo ajudou para que a visita fosse agradável. Não estava demasiado calor e não havia demasiados turistas, penso que ambos graças a umas nuvens cinzentas marotas que ainda deram direito a umas gotinhas de chuva.
O universo claramente é um menino maroto: de tantos
frescos, alguns dos mais bem conservados são realmente frescos. Ao que parece as ilustrações da casa das meninas (ou melhor, lobas, o lupanare) eram uma espécie de menu, desenhado com o intuito de evitar confusões linguísticas com os marinheiros estrangeiros. Não podendo contar com o Google Translate, essa parece ser uma boa solução.
frescos, alguns dos mais bem conservados são realmente frescos. Ao que parece as ilustrações da casa das meninas (ou melhor, lobas, o lupanare) eram uma espécie de menu, desenhado com o intuito de evitar confusões linguísticas com os marinheiros estrangeiros. Não podendo contar com o Google Translate, essa parece ser uma boa solução.
A visita guiada foi interessante mas engloba pouco das ruínas, portanto no final resolvi explorar sozinha. O que não é muito fácil. O mapa fornecido à entrada (a pedido, num guichet diferente, é preciso ir atrás senão não dão) não é fácil de navegar e não parece estar actualizado. No mapa as ruas tem nome, na realidade indicações em numerais romanos indecifráveis. Muitos dos locais que referiam no
mapa como “a não perder” estavam fechados. Quase parece que estão a fazer de propósito, numa tentativa de diminuir o número de turistas… Mesmo assim consegui perder-me durante 3 horas, e ver coisas incríveis. Na visita guiada entramos apenas numa das casas “ricas”, mas que não era claramente uma das mais bonitas. Dos banhos só tínhamos visto o lado dos homens, onde se percebe como funcionava a transmissão do calor, mas no lado das mulheres percebe-se qual era o seu real aspecto, as piscinas de pedra branca, as fontes. Nota mental: da próxima vez perder o amor ao dinheiro e ou fazer a visita cara ou comprar o guia ilustrado…
mapa como “a não perder” estavam fechados. Quase parece que estão a fazer de propósito, numa tentativa de diminuir o número de turistas… Mesmo assim consegui perder-me durante 3 horas, e ver coisas incríveis. Na visita guiada entramos apenas numa das casas “ricas”, mas que não era claramente uma das mais bonitas. Dos banhos só tínhamos visto o lado dos homens, onde se percebe como funcionava a transmissão do calor, mas no lado das mulheres percebe-se qual era o seu real aspecto, as piscinas de pedra branca, as fontes. Nota mental: da próxima vez perder o amor ao dinheiro e ou fazer a visita cara ou comprar o guia ilustrado…
Ao fim de cinco horas nas ruínas os meus pés ganharam vida propria e decidiram que já chegava, apesar do meu cérebro descordar. Cansada, faminta e com pouco discernimento entrei no primeiro restaurante que vi à saída das ruínas, onde comi a pior pizza da minha vida. Desgostosa com a Pompéia moderna, voltei ao hotel para descansar e dormir cedo, porque amanhã a aventura
continua.
Il mio quartiere
Dia simpático no hospital. Cirurgia oncológica e depois neonatal. Ambos por via aberta e ambos operados pelo Prof Chefe. O resto não tem hipóteses… Pelo meio, graças ao recém-criado network de internos consegui estudar um pouco e passar uma hora no centro de simulação, a tentar inventar uma modelo para treinar pieloplastias. Há uma idéia no ar com luvas de cozinha, segunda feira me dedico outra vez ao tema. Parece um dia curto, mas saí do hospital às 19h.
A caminho de casa, tentativa falhada de comprar tortelinni para o jantar: sold out. É o problema da pasta fresca… sniff sniff. Não sendo essa gulodice, seria outra, pelo que fui correr para merecer o jantar. A vida sem bancos realmente é maravilhosa. Em 2 semanas já consegui passar dos 3km a morrer para 4,5 tranquilos. Eu sei que para parece pouco, mas para quem detesta correr e nunca foi grande fã de cardio é mais do que bom. Antes de voltar passo a marca dos 5km, o que ando a tentar fazer há 5 meses à beira do Tejo…
Depois da aventura do outro dia não me aventurei para muito longe e diverti-me só a fazer quadrículas no meu bairro. Os passeios foram asfaltados recentemente (não há cá calçada portuguesa), pelo que o piso é regular e quase fofinho. As ruas são todas arborizadas, de modo que dá para correr à sombra. A corrida não é longa o suficiente para se tornar aborrecida, e a segurança de saber que se me cansar estou perto de casa acaba por ser uma motivação. Assim como os gelados daqui.
De noite, apesar do cansaço, reuni energias e fui encontrar-me com o meu companheiro de casa e uns amigos no centro da cidade. Estava uma noite demasiado agradável para não aproveitar. Bolonha de noite muda de cara. Perde o seu ar de senhora digna e vira qualquer coisa entre o boémio e o Punk. Muito preto, muita renda, muita tatuagem e muito mau corte de cabelo. E muita gente na rua.
Outra vez, a sorte protege os audazes que resolvem sair de casa mesmo podres. Apesar da sobrepopulação do bar onde estavam tinham arranjado uma mesa na esplanada. As minhas perninhas cansadas agradeceram. E apercebi-me que não conhecia cervejas italianas, para além da Peroni, que é claramente cerveja de estrangeiro. Pelo aspecto dos copos espalhados pela mesa a moda da cerveja artesanal também chegou aqui. Mas não tinham grande aspecto: cara de Guinness quente e sem gás. Portanto acabei por pedir ao Bartender simpático a cerveja mais fresca que eles tivessem. Ainda me perguntou mais 2 ou 3 pormenores (não se pode ser um bar com pretensões hipster e não se tentar fazer uma análise cuidada da personalidade do cliente para adequar a cerveja a ela). E acertou em cheio. Já me esqueci do nome, mas era uma “blanche bier” doce e fresquinha. Saborosa, apesar do aspecto de limonada.
Depois de uma hora de conversa agradável e algumas dicas de viagem lá me arrastei para casa. E como uma boa italiana comprei 2 fatias de pizza para me fazerem companhia no caminho.
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