quarta-feira, 31 de maio de 2017

Il pignoletto

 Dia blá no hospital. Programa operatório terminado às 12:30. Numa tentativa de fazer render os últimos dias dediquei 3 horas ao Campbell Walsh (tudo o que você sempre quis saber sobre refluxo vesico-uretral mas não teve paciência de ler) e depois fui para o simulador. Finalmente consegui um modelo mais ou menos fidedigno para a sutura da pieloplastia, mas ao fim de 45 minutos tive uma fúria e fui embora. Sem alguém para manobrar a câmara é difícil fazer algo mais complexo que a sutura simples, e hoje não me sentia com grande paciência- 
 Tentando ser uma pessoa positiva, que não só vê o copo meio cheio
como o vê mesmo cheio, resolvi procurar uma enoteca para provar o pignoletto, um vinho branco da região de Bolonha. Acabei numa rua pequenina e quase medieval, cheia de bares e restaurantes, que fica a um quarteirão da Piazza Maggiore e que por alguma razão me tinha escapado até agora. Acabei sentando na Enoteca Historical Faccioli, numa mesa ao sol do fim da tarde, e bebi um belo pignoletto
fresquinho e um sanduíche com a verdadeira mortadela (que também é originária de Bolonha). Aproveitei o fim da tarde para acabar mais um livro em italiano e chegar à conclusão que se quero linguagem simples mais vale comprar livros infantis que a porcaria que acabei de ler. Equivalente literário do Campari. 

 No caminho de volta a casa, por aquela que considero a minha rua, comecei a fazer a lista das despedidas. Sem grande mágoa, porque como dizia o poeta "que seja eterno enquanto dure". A melhor definição que encontrei para este período não foi estágio, ou férias disfarçadas, mas sim "trintasmus", termo cunhado por um dos amigos italianos. É uma espécie de Erasmus aos trinta, com mais trabalho, menos alcóol e comida de muito melhor qualidade, e em que depois do horário laboral ainda há energia para viver. Agora o desafio é conseguir manter o ritmo em casa...

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