terça-feira, 16 de maio de 2017

Gelato al pistacchio

 Piano, piano, estão a começar a habituar-se à minha presença. Sem dúvida as aulas de italiano foram uma boa jogada. Desde que se aperceberam que não precisam de falar inglês comigo os médicos por aqui tem sido muito mais simpáticos. Hoje já consegui discutir doentes, ter explicações detalhadas dos procedimentos, e convite para assistir a uma cirurgia conjunta com a neurocirurgia amanhã. Fiquei muito orgulhosa do meu italiano, que me permitiu discutir catéteres centrais durante 30 minutos (os ecoguiados são só postos por anestesista, raramente usam a subclávia mas fazem a abordagem por desbridamento da axilar). O único problema de agora me darem atenção é que tive pouco tempo para estudar e saí do hospital às 20...
 Durante esta estadia tenho pensado várias vezes na minha síndrome de Peter Pan. Talvez por estar a viver numa casa de universitários, a passar tempo com internos, com poucas responsabilidades. Por vezes esta minha reticência em crescer preocupa-me. Mas noutras vezes, como hoje, faz-me uma pessoa muito feliz. Depois de um jantar de gressinos e scquaquerone convenci o meu companheiro de casa a ir até ao centro da cidade comer um gelado e encontrar-se com os seus amigos simpáticos. E qual é o método de locomoção preferencial numa cidade plana e pequena, cujo centro está fechado ao trânsito? Bicicleta! Eu não aluguei um quarto, aluguei uma vida, que para além de roupa de cama e amigos vinha com uma bicicleta. Podre, sem travões, roda empenada, mas mesmo assim funcionante. E foi assim que eu, eterna promotora de segurança rodoviária, dei por mim a pedalar por Bologna  sem capacete e a travar com os pés. Antes que o meu progenitor e irmão tenham uma apoplexia, lembrar que a ciclovia cobre 80% da cidade, e que foi um risco calculado. YOLO. Just kidding, um dos planos para amanhã é alugar uma bicicleta decente e um capacete.
De cabelos ao vento, sorriso na cara, fomos até ao centro da cidade, até à gelataria favorita do meu companheiro de casa, Cremeria Funivia. Life changing experience. O melhor gelado que comi até hoje ( e que pode ser o último, uma vez que os gelados devem ser 60% nata). A consistência suave, a cor, o sabor! E o pistachio, verde acinzentado, delicioso... O facto de ter sido degustado numa noite que parece verão numa piazza italiana também pode ter contribuido para a experiência. 
 Daí seguimos até à Piazza Maggiore, onde pousamos as bicicletas e estivemos sentados nos chão ainda quente do sol, à frente da Basilica de San Petronio, até que chegaram os amigos italianos com pizza. De sobremesa, outro gelado na Piazza Santo Stefano (menos pontos no critério consistência, mas igual no sabor), no meio de conversa simpática e interessante. Nem quando era universitária fui tão universitária. Acho que ainda não se aperceberam que eu tenho mais 10 anos do que eles. Uma das muitas vantagens de ser imatura.
 Retorno a casa enquanto ainda havia energia, rindo em voz alta e temendo pela minha vida. Vou acreditar que o trajecto deu para queimar pelo menos meio gelado...

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