Depois da visita fui encaminhada para o bloco com o Guia Oficial, um especialista novo que é o mestre de cerimónias do master. O bloco tem duas salas, mas apenas uma em funcionamento. Mas uma bela sala: equipamento OR1 da Storz e tamanho suficiente para organizar um jogo amigável de futebol de salão. Funciona das 08 às 20. Não há sala para as urgências, ou esperam até à noite ou interrompem a sala. E nós reclamamos da dificuldade de operar urgências antes das 17h...
A organização do serviço é para mim um pouco estranha. Não existe uma consulta própria de cada médico, simplesmente a consulta de cirurgia pediátrica e um médico escalado para a consulta nesse dia. O mesmo se passa com o bloco. Portanto o médico que dá a indicação cirúrgica não é necessariamente o médico que opera. E as enfermarias estão divididas entre os internos: doentes mais velhos internos mais novos e vice-versa. Portanto também não seguem necessariamente os doentes em que estiveram envolvidos na cirurgia. Em relação à urgência, se tiverem de interromper uma sala que opera é o cirurgião escalado para o bloco e não quem está de banco. Mais parecido com MCR do que com a casa-mãe. Não gosto.
Mas tem um pormenor que eu adoro: gabinetes. Existe um para cada 2 ou 3 médicos, com secretária, armário, cabide. E eu vou ter um, graças à licença de maternidade de uma das especialistas! Tenho direito a uma chave, e um espacinho só para mim, onde posso trabalhar ou dormir a sesta. Isto é qualidade de vida.
Voltando ao bloco, mais vale fazer uma lista de supermercado daquilo que me chamou a atenção:
- os panos e as batas esterelizadas são todos mesmo de pano, reutilizáveis
- todas a cirurgias são documentadas com foto ou filme. Todas mesmo todas, do mais simples ao mais complexo. Existe um interno escalado diariamente para essa função. Quando perguntei se isso se relacionava de alguma forma com litígio médico-legal responderam que não, é só um hábito do serviço...
- para facilitarem a contagem de compressas durante a cirurgia todos os caixotes do lixo da sala são cobertos com lençóis, portanto tudo o que for fora é facilmente visualizado
- há um crucifixo por cima da porta da sala
- as mães entram com os doentes até à sala de operações. Os doentes não choram menos por isso.
- os cobertores das camas do recobro são todos da Disney
- o tempo entre cada doente é tão mau ou pior que na casa-mãe
- o refeitório fica noutro edifício, a 10 min do edifício pediátrico, portanto todos trazem almoço de casa. Ponto para mim, que vou poder almoçar salada todos os dias e empaturrar-me de consciência tranquila a noite
- o bloco é muito mais silencioso. Pode estar relacionado com o menor número de sala e menor tamanho, mas não ouvi ninguém falar alto ou gritar para o corredor a pedir material. A única altura em que houve barulho foi ao final da tarde quando quase todos os cirurgiões do serviço apareceram e começaram a contar piadas...
Portanto o primeiro dia foi interessante. Vi muita cirurgia laparoscópica, nada muito avançado mas engrçado. Fiquei com pena dos internos, que não tocam na borracha. Na sala está sempre um especialista senior, um especialista junior e um interno. O sénior opera as coisas complexas, o júnior as menos complexas e o pobre interno se fechar a pele já se considera com sorte. Pelo que percebi existe uma segunda sala noutro pólo só para ambulatórios, onde espero que operem qualquer coisinha...
Às seis da tarde resolvi que já tinha visto ciência suficiente (e só faltava uma colonoscopia de controlo num doente com polipose familiar) e fui embora. A caminho de casa parei finalmente numa mercearia por onde passo todos os dias a caminho do hospital, onde há sempre tortelinni acabado de fazer na montra. Depois de um dia de trabalho árduo eu mereço uma coisinha boa. De que serve estar na Itália se não aproveitar a riqueza gastronómica local? Pensando bem, isto é quase o equivalente a uma ida a um museu. Para além disso, fazer tortelinni in brodo é estupidamente fácil e portanto ao alcance dos meus dotes gastronómicos.
Para me sentir menos culpada com a pasta fresca ao jantar condensei toda a força de vontade que possuo e fui correr. Só mesmo por obrigação. Para poder amanhã comer tiramisu E crema de mascarpone de sobremesa. Serviu para ficar a conhecer o bairro, que é bastante agradável. Tem, no entanto, uma população canina considerável e aparentemente pouca gente com sacos plásticos. Portanto a corrida contou como corrida de obstáculos, o que claramente dá direito também a um gelato.
De consciência tranquila jantei com o meu companheiro de casa, que é mesmo o companheiro de casa ideal: muito simpático mas passa muito tempo fora. Voltou hoje de uma viagem de trabalho e viaja novamente amanhã para passar o fim de semana fora. Companhia agradável mas que assim não cansa. Quanto ao tortelinni, estava delicioso. Mesmo com o brodo da Knorr....
Bem vinda ao admirável mundo da cirurgia italiana, de resto muito bem descrito. Quem pode opera, mas muito tarde na vida. Quem não pode faz tudo menos operar ( filma, investiga wtf that means, escreve, fala do que não sabe, etc.). A e master opera tudo tudo tudo e promove-se junto dos que podem e não podem, sendo correctamente endeusado como convém aos chefes. Os tortellini também podem ser cosidos em água e sal e temperados só comm manteiga derretida e parmigiano ralado😜
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