Manhã corrida. Dez minutos a mais na ronha foram o suficiente para estragar o meu início de dia planeado ao minuto, mas mesmo assim consegui chegar a tempo da visita. Para descobrir que o programa operatório da treta do dia de hoje tinha sido cancelado por causa de um RN que chegou durante a noite. Por um lado iupi, por outro pareceu-me um bocadinho excessivo cancelar os doentes todos. A sala não funciona supostamente até às 20h? Enfim... Dadas as minhas conections com a internagem local consigo agora andar a fazer a minha vida e receber mensagem quando o doente entra no bloco. Resolvi aproveitar o tempo indo finalmente para a sala dos endotrainers, brincar um pouco aos laparoscopistas. Já deu para perceber que ao longo do dia há muito tempo de pausa, portanto agora que consegui pôr as leituras em dia o plano seguinte é construir uns modelos para brincar. Ao fim de 20 minutos já tinhas as mãos cansadas, de modo que fiquei feliz quando me avisaram que era hora de ir para o bloco.
Outra vez, vantagens da super OR1. Assisti à cirurgia num ecrã sentadinha e confortável, e até aprendi a virar a câmara e mexer no zoom para melhorar a visão. Luxo. Aproveitei também a oportunidade para falar com o colega egípcio do master's que está ao mesmo tempo a fazer o doutoramento na UniBo. Não sei porque é que insisto em estagiar em países europeus... Pelo que ele me contou são 10 cirurgiões e 5 internos para uma população de 20 milhões, com alta taxa de natalidade. Há lista de espera para RN, uma atrésia intestinal sem complicações fica 4,5 dias à espera de ser operada. O programa laparoscópico começou há 6 anos, directamente na fundoplicatura de Nissen e hérnia diafragmática sem passar pela casa partida das apendicites (há que poupar o material para os casos complexos). E os internos aqui a ficarem felizes com uma circuncisão...
No final da cirurgia, o Prof, que eu às vezes penso que se esqueceu da minha presença, convidou-me e ao colega egípcio para ir com ele a uma conferência em Imola, onde ia falar sobre o papel da Radiologia na Urgência de Cirurgia Pediátrica. Sem ter grande escapatória lá fomos. A viagem foi agradável, a paisagem a mesma que tinha visto nas viagens de comboio, planície plantada com umas casinhas no meio. Logo à entrada da cidade, indicação para o autódromo. Sniff sniff, Ayrton Senna.
Tarde passada numa sala sem janelas, a ouvir primeiro o Prof e depois radiologistas a falar italiano. Após 5 horas tinha o cérebro em papa. Mal consegui aguentar a conversa no carro, felizmente em inglês.
Casa, banho, rua. Depois do dia todo encafuada precisava de ar fresco e um bom jantar. Seguindo a sugestão de um amigo que é um autêntico guia Michelin em forma de gente e que esteve em Bolonha há uns anos fui então em direcção à Osteria Broccaindosso. Que por acaso até fica perto da minha casa. Adoro quando os astros se alinham.
Resolvi fazer o caminho mais longo, passeando pela Strada Maggiore, apreciando as lojas de velharia e de roupa, e altamente arrependida do meu projecto pessoal de não comprar nada que não fosse estritamente necessário durante um mês. Damn you, blogues sobre minimalismo e decluttering!
Mesmo a um passo vagaroso cheguei ao restaurante em 15 minutos. Pergunta à porta: Ha prenotazione? Ummmmm. Não. Após 5 minutos de conversa entre os empregados lá se decidem que se eu quiser tenho uma mesa durante uma hora. Ao lado da casa de banho. Ok, aceito. De forma não muito simpática retiram a emente em italiano e substituem-na pela inglesa. E apercebo-me que todas as outras pessoas no restaurantes são turistas (eu não, sou expat, que é mais fixe). A atitude passivo-agressiva mantém-se ao longo
de todo o jantar, mas a comida é tão boa que eu não me importo. Tortelonni con ricotta e de sobremesa crema di mascarpone, regado com um belo sangiovese. Estou a cometer
suicídio com lacticínios e não me importo.
Numa tentativa de fazer a digestão (haha, nunca) resolvi não vir directamente para casa e seguir a Strada Maggiore até ao centro da cidade. A cidade é uma mistura deliciosa de velho e novo. Aqui tudo é antigo, e numa boa forma romana, até o belo é útil. Dada a riqueza arquitectónica não tentam preservar tudo, acabam só por utlizar nas mesma os palazzos para habituação, lojas, escritórios. Nesta rua há uma loja de móveis com
frescos no tecto e paredes, noutra rua ocorre o mesmo com uma loja de maquilhagem. Os edifícios servem para viver, o facto de serem lindos é só uma mais valia.
Ao fim de 40 minutos em passo de caracol cheguei finalmente a casa, para encontrar o meu companheiro de casa e o seu amigo a caminho de uma esplanada a 2 quarteirões de casa. Como sou uma fácil acabei por me juntar a eles, apesar do cansaço. Mas como a sorte protege os audazes quando lá chegamos ao invés da música agradável do outro dia (segundo eles) estava a tocar espanholada electrónica, e voltamos para casa.
E agora vou dormir, esperando que o monstro dos lacticínios não venha puxar o meu pé está noite.
Your moment of zen:




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