domingo, 14 de maio de 2017

Mangiando zucca in modi diversi

 Nada como a perspectiva de um fim de semana livre, sem bancos à vista, para me fazer acordar antes do nascer do sol. Às sete e meia da manhã de sábado já estava a preparar o farnel para a visita a Ferrara. Às oito e meia de mochila às costas, a caminho da estação - 3,65km de distância (desde 6ª comecei a registar obsessivamente as distâncias percorridas, aproveitando o Runtastic). Cinquenta e quatro minutos depois estava a comprar o bilhete de comboio (Runtastic rules). 
 Depois de muitas dúvidas e muito tempo perdido na internet a tentar decidir que fazer este fim de semana acabei por optar por duas pequenas day trips a partir de Bologna, Ferrara e Ravenna. Uma vez tomada a decisão, começou o ataque internético à procura do que fazer. Uma das razões por optar por estas duas pequenas cidades residia no facto de apesar de bonitas não serem particularmente turísticas, dada a existência dos pesos pesados por perto. E rapidamente se chega à conclusão que ainda não estão muito preparadas para o turismo não italiano. Para além dos sites difíceis de navegar, não existem visitas guiadas em inglês em nenhuma das duas. A necessidade de saciar o meu vício de walking tours me levou a mandar emails para vários guias sugeridos no Trip Advisor, apesar de ter ficado com a sensação que organizavam maioritariamente tours privados. Yup, receio confirmado pelos emails de resposta - 120 euros para Ferrara, 60 para Ravenna. Usando a racionalização que me tem feito gastar um balúrdio de dinheiro no último mês (o facto de ter conseguido passar de um quarto bastante caro para um muito baratinho, portanto posso aproveitar para gastar a diferença em outros aspectos relacionados com a estadia, como as aulas de italiano, a viagem a Pompéia, etc), resolvi que pelo menos a de Ravenna iria aproveitar. E mandei os respectivos mail de recusa e confirmação. A sorte protege os audazes ( e aqueles que gastam dinheiro). Por acaso a guia de Ravenna só tinha disponibilidade para Domingo, e como para mim não fazia diferença ficou acordado para esse dia. E ao fim do dia de sexta feira recebi um email da senhora de Ferrara dizendo que por um enorme acaso tinha recebido outros 2 pedidos de informação sobre uma tour em inglês neste sábado e se eu estivesse interessada poderia me juntar aos outros dois viajantes, fazendo com que o preço ficasse a 1/3 do original. Score!
 Portanto, com o telefone cheio de podcasts e o Runtastic para saber exactamente quantos metros andei, lá fui eu para Ferrara. O caminho de comboio é bonito mas monótono. Planície agrícola cultivada com umas casinhas no meio. Uma vez lá, a primeira impressão é que voltei a Holanda: assim que saio da estação vejo um estacionamento enorme de bicicletas. E só bicicletas na estrada. Eu pensava que tinha visto todo o tipo de acrobacias ciclísticas no meu mês holandês, mas em cinco minutos vi coisas novas: uma bicicleta com um suporte tipo side car para cadeira de rodas, uma senhora equilibrando 3 crianças, e pelo menos duas pessoas escrevendo mensagens no telemóvel sem nenhuma mão no guiador. Claramente uma campanha de sensibilização wating to happen...
 Mas não tive tempo de apreciar muita coisa. Tive que ir a correr da estação até ao centro da cidade para tentar apanhar a visita guiada ao Castello Estense. Em italiano. A senhora da bilheteira ainda me tentou demover, dizendo que demorava hora e meio, e nem sequer era assim tão interessante... Tinha razão em parte: a visita foi interessante, o castelo nem por isso. Apesar de por fora ter um aspecto de castelo das histórias, com direito a fosso com água à volta e tudo, por dentro está quase totalmente descaracterizado, com excepção de algumas salas que ainda tem frescos no tecto. Que estão repletos de "pensos rápidos" de papel encerado enquanto esperam reparações após os danos do último terremoto.
 Cada vez mais fico contente pela minha decisão de tentar aprender um mínimo de italiano antes de vir para cá. Tenho a certeza que perderia muito daquilo que tenho aprendido e apreciado sem isso. Já percebi por exemplo no hospital que  tirando os internos e as pessoas envolvidas no master's o resto do pessoal não vai fazer esforço nenhum para comunicar noutra língua. E nos museus e outros monumentos quase nunca há "legendas" em inglês. E as visitas em italiano são tãããããõoooo mais baratas.
 Do castelo fui passeando pelas piazas e pelas ruazinhas até ao meu destino gastronómico, Il Mandolino, restaurante sugerido pela guia. Óptima escolha. Uma pessoa sabe que acertou quando o restaurante está cheio de famílias italianas. Relativamente pequeno, nas mãos de uma dinastia culinária que começou com a Nonna Noemia (que faleceu há uns aninhos depois de ter ultrapassado os 80), decorado com quadros e fotos oferecidos. Almocei na companhia do meu livro italiano (um romance merdoso traduzido, com linguagem simples o suficiente para eu enterder - o próximo será a Divina Comédia no original) e de 2 copos de vinho. Fiore di zucca e cappellacci di zucca, com um bolo de chocolate como sobremesa. Meio cambaleante dei mais umas voltinhas pela zona velha até ser hora de me encontrar com a guia.
 A visita guiada valeu o dinheiro pago por ela. A guia era super simpática, os outros dois senhores pessoas tão interessadas quanto eu, e as 3 horas da visita acabaram por ser 4. Em parte porque tivemos que alterar o percurso da visita devido à invasão do centro da cidade por fãs do Spal, o clube de futebol local, que conseguiu subir de divisão nessa tarde. Os vendedores de bandeiras apareceram num instante, e em pouco tempo não se conseguia passar pelo mar de azul e branco (senti-me em casa). Claro que não foi tão grande como a comemoração de Fátima, Futebol e Fado que sei viu em Portugal, mas mesmo assim respeitável.
 Entre outras coisas, aprendi que Ferrara foi quase tão importante como Florença durante o Renascimento, mas que perdeu quase tudo quando os Este  (do Castello Estense) se foram embora. Que a Lucrécia Borgia talvez não fosse tão má pessoa como foi pintada, e que aparentemente passou a segunda metade da sua vida muito feliz em Ferrara, parindo filho atrás de filho e sendo uma boa duquesa para o povo. Que o Ercole I desenhou o primeiro plano de desenvolvimento urbano, construindo uma muralha à volta da cidade englobando aquilo que ele queria que se transformasse num bairro novo, e que por causa disso Ferrara é uma das cidades históricas mais bem conservadas do mundo, porque não precisou de destruir os  edifícios antigos para encontrar lugar para crescer. E, mas interessante de tudo, que a Casa dos Bicos em Lisboa é uma cópia! Igualzinha ao Palazzo dei Diamanti em Ferrara! 
 E foi aí que acabou a visita. Aproveitei o resto dos hidratos de carbono do almoço para andar mais um pouqinho, até à gelataria sugerida pela guia, onde atestei o depósito com nutella, chocolate e pistachio. Uma palavra sobre o gelado de pistachio - não tem nada a ver com a gosma verde que se come noutros lugares. Tem uma cor verde mais escura, e é delicioso. Decidi que esta vai ser a minha tríade pespsi challenge para as diversas gelatarias italiana.E de gelado na mão, andei até à muralha intacta da cidade, e seguia-a até à estação. 
 Com mais uns km até a casa, percorri um total de 14 km.  E segundo o Runtastic queimei 5000 kcal, porque ele acredita que eu passei todo este tempo a correr... 


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