sexta-feira, 12 de maio de 2017

Il primo gelato

 Dia 2 de hospital muito semelhante a dia 1. Visita logo pela matina, seguida de bloco. Hoje um primeiro doente complexo, urológico, para cistoscopia de controlo. Para além do caso ser interessante, permitiu-me apreciar a verdadeira biblioteca de imagens que eles possuem. Não só fotografam obsessivamente todas as intervenções como guardam as imagens num programa que permite associar as imagens às cirurgias e aos relatos cirúrgicos. Portanto pude divertir-me a rever as imagens das cirurgias prévias. Fun fun fun. 
 Doente seguinte mais uma hérnia laparoscópica, desta vez numa criaturinha de 2 meses. Apesar de ainda não ter visto procedimentos muito avançados é interessante observar o à vontade com a laparoscopia. Ninguém questiona, ninguém reclama, o material demora 2 minutos a ser montado. E acrescente-se que até agora não houve um único glitch técnico. É assim que vivem as pessoas que trabalham com material de qualidade e compatível, e não com Franken-material. Enfim...
 Tendo em conta que os doentes seguintes não tinham indicação para cirurgia laparoscópica e não eram nada de particularmente interessante aproveitei para sair mais cedo e aproveitar não só o dia bonito como a possibilidade de finalmente visitar o Museo di Palazzo Poggi, que encerra às 16h e que tenho tentado visitar desde a primeira visita a Bolonha. Porque? Porque é um museu old school, com animais e rochas dentro de estantes, e uma colecção fabulosa de figuras anatómicas de cera. Há quem goste de arte contemporânea, e há quem aprecie modelos anatómicos... 
 Imaginava que a colecção era bonita, mas não estava preparada para a beleza do edifício. O meu quarto deve ser a única divisão nesta cidade sem frescos nas paredes e tecto de madeira pintada. Os modelos anatómicos de cera são extraordinariamente bem feitos, mas sem dúvida o que mais gostei da exposição foi a sala dedicada aos modelos obstétricos. Não só os modelos são espetaculares do ponto de vista de execução, a sala em si é maravilhosa. No século XVIII um professor de Cirurgia de Universidade de Bolonha resolveu criar uma escola para médicos e parteiras com uma componente especialmente prática. Para além dos modelos anatómicos de todas as possíveis apresentações fetais tinhas também uma "birthing machine" onde os alunos ensaiavam os diferentes tipos de parto. Duvido que os obstetras de hoje tenham uma formação tão completa. 
 À saída do museu, surpresa: chuva torrencial. Logo no dia bonito em que saí de casa a correr e não trouxe casaco... A minha sorte é que o mundo cabe na minha mochila, e ainda lá tinha o guarda-chuva, e que esta chuva era chuva quente (demasiado tropical para este meridiano). Depois de um pit-stop em casa voltei a sair, desta vez para conhecer o Museo della Storia di Bologna no Palacio
Pepoli. Pelo caminho a chuva parou, e as nuvens afastaram-se no momento exacto: estava diante da Gelateria Lilasù, considerada uma das melhores da cidade. Depois de me degladiar com as opções, acabei por fazer uma escolha segura de Nutella (nunca corre mal), chocolate (muito dificil não ser bom) e frutos vermelhos (se não for bom os outros disfarçam). Incrível. As supostas gelatarias italianas de Lisboa deviam ter vergonha na cara... Para além de melhor em todos os critérios (sabor, consistência, tempo que demora a derreter), o gelado aqui é mais barato! 
Depois da paragem gastronómica segui para o tal Museu. Desta vez o meu cartão de estudante não me deu direito a entrada gratuita. Humpf. Deu para ter um desconto e mesmo assim pouco significativo. Se o Palazzo Poggi é um exemplo de museu old school, com os espécimens em estantes de madeira trabalhada, o Palazzo Pepoli é o oposto. A exposição tenta explicar a história da cidade em 12 salas, de forma altamente resumida, mas com muitas imagens e videos, e a tentar ser "fixe". Um museu mais fácil.
Mesmo assim, consegui deambular por lá durante 2 horas, a tentar ler as legendas em italiano (claramente não tem grande vontade de agradar ao público estrangeiro), em parte porque estava a gostar da exposição mas principalmente porque começou novamente a chover de modo torrencial. Claro que numa cidade com 33 km de pórticos eu decido ir para o único quarteirão descoberto... Deu para aprender um pouco mais sobre a história da cidade e divertir-me a reconhecer as igrejas e os pórticos dos quadros antigos. 
 Depois de tanta cultura, achei que era novamente tempo de pausa. Armei-me em italiana e fui beber um aperitivo numa vineria. Senti-me muito chique e sofisticada, não fosse a minha mochila. 
 Daí para casa, para fazer coisas tão interessantes como lavar a louça e tratar da roupa. Sexta feira à noite muito animada...

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