Passear com companhia tem outro encanto. Na sexta feira mostrei alguns dos meus locais favoritos: o museu do Palazzo Poggi, Basílica Santo Stefano, a Sala Borsa com o seu tecto fabuloso e ruínas romanas na cave, via San Vitale, Piazza Cavour. E conheci alguns novos, como o Palazzo Acursio, com as suas salas incrivelmente decoradas. Todo este percurso cultural foi ponteado por paragens gastronómicas. Almoço num favorito bolonhês, SfogliaRina, que me foi recomendado por vários locals e onde eu até já tinha comprado pasta fresca, mas não experimentado a parte de restaurante. Um gnocchi delicioso, com molho de pecorino, mas que apesar de tudo me deixou com saudades do gnocchi da minha mamma. Pausa para gelado na Lilasu, que para além de gelados deliciosos fica por baixo de uma arcada medieval lindíssima. Finalmente fui beber um aperitivo no Le Stanze, o bar que fica numa antiga capela, com o tecto e paredes decorados com frescos. No entanto, nem a beleza do local conseguiu tornar o meu cocktail palatável… A minha ideia de que Martini nunca pode correr mal morreu aí. E ligeiramente tocados fomos jantar à minha osteria favorita, del’Orsa, onde o jantar foi tão lauto que fui obrigada a dividir um tiramisu, porque não havia condições para mais.
Em tão pouco tempo já sinto a cidade como minha. Com os meus locais preferidos, os pequenos pormenores escondidos que descobri. Mas também é bom perceber que ainda há tanto para conhecer. Um mês não é suficiente para tudo, mas dá para muita coisa. E renova a vontade de quando voltar para casa manter o espírito de descoberta urbana, passear mais, sair mais, viver mais a cidade. Nada como ser turista na nossa própria cidade.
No sábado, day trip a Veneza. Decisão espontânea da noite anterior. Uma revisitação em idade adulta, para os dois. Graças ao train hub de Bolonha, duas horas de viagem no comboio baratinho (frecciarossa é só para ocasiões especiais). Por coincidência, a minha intrépida companheira de viagens anteriores também estava em Veneza. Nada como ser chique e combinar um café em frente ao Canal Grande.
A estação de Santa Lucia desemboca directamente no Canal Grande, de um modo quase teatral. Depois de 5 minutos a apreciar a beleza do local, voltei a entrar na estação para ir ao Tourism Office pedir um mapa. E
descobrir que eles realmente estão fartos de ser simpáticos para os turistas, porque me cobraram 3 euros. A cidade é maior do que eu me lembrava, mas mesmo assim pequena o suficiente para se desfrutar num dia, principalmente porque o plano era só andar perdidos nas ruas e resistir à tentação de entrar nos muitos museus.
Pouco depois encontramos a minha intrépida companheira de viagem e os seus companheiros de viagem. Decidimos juntar-nos ao plano deles e seguir para um free walking tour (conceito que não tenho encontrado nesta viagem...). Foi uma boa maneira de ver Veneza com outros olhos, e por outros recantos. O guia era um venentian born and raised, músico e jornalista, que fazia o tour de forma gratuita aos fins de semana e que todo recebido seria para uma organização que se ocupa de tornar a cidade mais transitável para pessoas em cadeiras de rodas. Nunca tinha pensado no assunto, mas realmente não deve ser fácil atravessar as mil pontes e pontesinhas e ruas estreitas... Portanto, logo ao início assegurou uma propina razoável.
Começamos no ghetto e dali fomos saltitando de bairro em bairro sem nos darmos conta, quase sempre por ruas quase desertas. Praça de São Marcos e outros hits não fazem parte do trajecto. A imagem de decadência que guardava da Serenissíma ainda se mantém, mas desta vez transmitiu-me uma sensação de decadência charmosa, quase propositada, e não de ruína inevitável como da outra vez.
Almoço na Piazza Margheritta, uma pasta com pesto que não envergonhava, acompanhada de um Lambrusco que até podia ser manhoso mas estava tão fresco e estava tanto calor que me pareceu néctar dos Deuses. Após a refeição, dissemos adeus à intrépida companheira de viagem e amigos, que seguiram para a ilha de Murano, enquanto nós fomos andando entre perdidos e achados até à Praça de
São Marcos. Não me recordava da Basílica ser tão ornada e bonita. Como bons turistas pelintras, ficamos sentados num degrau debaixo das arcadas, a apreciar a beleza e a atmosfera do local, mas sem vontade de largar 7 euros por um café. Com 2 horas até ao comboio fomos voltando sem pressas até à estação. Ainda tivemos tempo para para numa pracinha anónima, em frente a um pequeno canal, para beber o pior aperitivo de todos os tempos numa esplanada muito simpática. Se o Martini do dia anterior tinha sido mau, este Campari era muito pior. A única coisa boa que posso dizer é que a azeitona estava boa. Mas eu aprendo com os meus erros, da próxima vez bebo uma cerveja.
Domingo, dia de peregrinação. Depois de um pequeno almoço tardio reforçado por um gelado da Funivia, fizemos os 11km até ao Santuário della Madonna di San Luca. Caminhamos abrigados do sol, debaixo dos pórticos, com uma subida moderadamente agressiva no final. Deve ser um dos percursos dos weekend warriors de Bolonha, com muita gente a subir devagar e a descer depressa de fato de treino. Nós conseguimos a proeza de nos desencontrarmos do
ícone da Virgem, que desce numa procissão até à Igreja de São Pedro no centro da cidade a meio de Maio e regressa 15 dias depois. O que explicava as bandeiras vermelhas, as passadeiras e os altifalantes pelo caminho: a subida começava nesse dia às 16h (que foi mais ou menos quando lá chegamos) e atinge o seu destino por voltas das 20h. Paciência.... A vista do Santuário é impressionante, mas fica de "costas voltadas" para a cidade. Vêem-se os montes, florestas e prados à volta de Bolonha, mas não Bolonha em si. Para ver La Grassa é preciso pagar 5euros e subir mais 110 degraus, até à cúpula. Depois de uns minutos a recuperar o fôlego lá fomos nós. Vista do alto a cidade é tão pequenina! E tem mais torres do que estava à espera. Consegui identificar quase todos os pontos importantes, e me senti uma local.
Para recuperar desta aventura, seguimos para o centro (desta vez de autocarro, porque estávamos cansados e eu como local que quase sou conheço os percursos), para o Quadrilátero, à procura de um lanchinho. Que acabou por ser uma tábua de enchidos e queijos e uma garrafa de Lambrusco (Aperol e companhia já não me apanham!). Devidamente reconfortados, fomos jantar. Osteria Broccaindosso não desiludiu, tanto nas pastas como na sobremesa.
Segunda feira tive que ir trabalhar, porque de todos os dias em que podiam ter operado um Hirschsprung com tempo abdominal por via laparoscópica resolveram escolher o dia em que a cara metade estava cá. Humpf. Cirurgia interessante, mas mais laparo-assistida que laparoscópica...
Uma das vantagens de ter uma cara metade que partilha os meus interesses é que dá para conjugar turismo e trabalho. Portanto à tarde ele se juntou a mim e fomos assistir a uma cirurgia robótica. Muuuuuuiiiiiiitooooooo tempo para preparar o doente, pouco para operar. Assim ainda tivemos tempo de ir comer um gelado ao fim do dia. Infelizmente a Funivia estava fechada, e tivemos que nos contentar com um gelado de categoria inferior. Estou tramada quando voltar para casa.
À noite, para me vingar da feijoada brasileira preparada por uma italiana, fiz um jantar italiano em casa. Bruschetta com tomate e tortelinni in brodo. Para sobremesa, algo totalmente inusitado. Favas cruas com queijo. Parece estranho, mas é delicioso. Nem sabia que se podia comer favas assim. Talvez não funcione sempre, mas estas, apanhadas no fim de semana no quintal da casa dos pais do meu companheiro de casa estavam uma delícia, frescas e estaladiças. Realmente uma nova experiência gastronómica.
E hoje um dia agridoce, com direito a um último passeio acompanhada pela cidade, um bom almoço na Piazza Santo Stefano, e um gelado de despedida na Funivia. Passei o resto do dia no hsopital, no simulador, para não ter que ir para casa sozinha. Mas o que vale é que a melancolia também passa rápido. Há que aproveitar os poucos dias que restam por estes lados.
Your moment of zen:
No sábado, day trip a Veneza. Decisão espontânea da noite anterior. Uma revisitação em idade adulta, para os dois. Graças ao train hub de Bolonha, duas horas de viagem no comboio baratinho (frecciarossa é só para ocasiões especiais). Por coincidência, a minha intrépida companheira de viagens anteriores também estava em Veneza. Nada como ser chique e combinar um café em frente ao Canal Grande.
A estação de Santa Lucia desemboca directamente no Canal Grande, de um modo quase teatral. Depois de 5 minutos a apreciar a beleza do local, voltei a entrar na estação para ir ao Tourism Office pedir um mapa. E
descobrir que eles realmente estão fartos de ser simpáticos para os turistas, porque me cobraram 3 euros. A cidade é maior do que eu me lembrava, mas mesmo assim pequena o suficiente para se desfrutar num dia, principalmente porque o plano era só andar perdidos nas ruas e resistir à tentação de entrar nos muitos museus.
Pouco depois encontramos a minha intrépida companheira de viagem e os seus companheiros de viagem. Decidimos juntar-nos ao plano deles e seguir para um free walking tour (conceito que não tenho encontrado nesta viagem...). Foi uma boa maneira de ver Veneza com outros olhos, e por outros recantos. O guia era um venentian born and raised, músico e jornalista, que fazia o tour de forma gratuita aos fins de semana e que todo recebido seria para uma organização que se ocupa de tornar a cidade mais transitável para pessoas em cadeiras de rodas. Nunca tinha pensado no assunto, mas realmente não deve ser fácil atravessar as mil pontes e pontesinhas e ruas estreitas... Portanto, logo ao início assegurou uma propina razoável.
Começamos no ghetto e dali fomos saltitando de bairro em bairro sem nos darmos conta, quase sempre por ruas quase desertas. Praça de São Marcos e outros hits não fazem parte do trajecto. A imagem de decadência que guardava da Serenissíma ainda se mantém, mas desta vez transmitiu-me uma sensação de decadência charmosa, quase propositada, e não de ruína inevitável como da outra vez.
Almoço na Piazza Margheritta, uma pasta com pesto que não envergonhava, acompanhada de um Lambrusco que até podia ser manhoso mas estava tão fresco e estava tanto calor que me pareceu néctar dos Deuses. Após a refeição, dissemos adeus à intrépida companheira de viagem e amigos, que seguiram para a ilha de Murano, enquanto nós fomos andando entre perdidos e achados até à Praça de
São Marcos. Não me recordava da Basílica ser tão ornada e bonita. Como bons turistas pelintras, ficamos sentados num degrau debaixo das arcadas, a apreciar a beleza e a atmosfera do local, mas sem vontade de largar 7 euros por um café. Com 2 horas até ao comboio fomos voltando sem pressas até à estação. Ainda tivemos tempo para para numa pracinha anónima, em frente a um pequeno canal, para beber o pior aperitivo de todos os tempos numa esplanada muito simpática. Se o Martini do dia anterior tinha sido mau, este Campari era muito pior. A única coisa boa que posso dizer é que a azeitona estava boa. Mas eu aprendo com os meus erros, da próxima vez bebo uma cerveja.
Domingo, dia de peregrinação. Depois de um pequeno almoço tardio reforçado por um gelado da Funivia, fizemos os 11km até ao Santuário della Madonna di San Luca. Caminhamos abrigados do sol, debaixo dos pórticos, com uma subida moderadamente agressiva no final. Deve ser um dos percursos dos weekend warriors de Bolonha, com muita gente a subir devagar e a descer depressa de fato de treino. Nós conseguimos a proeza de nos desencontrarmos do
ícone da Virgem, que desce numa procissão até à Igreja de São Pedro no centro da cidade a meio de Maio e regressa 15 dias depois. O que explicava as bandeiras vermelhas, as passadeiras e os altifalantes pelo caminho: a subida começava nesse dia às 16h (que foi mais ou menos quando lá chegamos) e atinge o seu destino por voltas das 20h. Paciência.... A vista do Santuário é impressionante, mas fica de "costas voltadas" para a cidade. Vêem-se os montes, florestas e prados à volta de Bolonha, mas não Bolonha em si. Para ver La Grassa é preciso pagar 5euros e subir mais 110 degraus, até à cúpula. Depois de uns minutos a recuperar o fôlego lá fomos nós. Vista do alto a cidade é tão pequenina! E tem mais torres do que estava à espera. Consegui identificar quase todos os pontos importantes, e me senti uma local.
Para recuperar desta aventura, seguimos para o centro (desta vez de autocarro, porque estávamos cansados e eu como local que quase sou conheço os percursos), para o Quadrilátero, à procura de um lanchinho. Que acabou por ser uma tábua de enchidos e queijos e uma garrafa de Lambrusco (Aperol e companhia já não me apanham!). Devidamente reconfortados, fomos jantar. Osteria Broccaindosso não desiludiu, tanto nas pastas como na sobremesa.
Segunda feira tive que ir trabalhar, porque de todos os dias em que podiam ter operado um Hirschsprung com tempo abdominal por via laparoscópica resolveram escolher o dia em que a cara metade estava cá. Humpf. Cirurgia interessante, mas mais laparo-assistida que laparoscópica...
Uma das vantagens de ter uma cara metade que partilha os meus interesses é que dá para conjugar turismo e trabalho. Portanto à tarde ele se juntou a mim e fomos assistir a uma cirurgia robótica. Muuuuuuiiiiiiitooooooo tempo para preparar o doente, pouco para operar. Assim ainda tivemos tempo de ir comer um gelado ao fim do dia. Infelizmente a Funivia estava fechada, e tivemos que nos contentar com um gelado de categoria inferior. Estou tramada quando voltar para casa.
À noite, para me vingar da feijoada brasileira preparada por uma italiana, fiz um jantar italiano em casa. Bruschetta com tomate e tortelinni in brodo. Para sobremesa, algo totalmente inusitado. Favas cruas com queijo. Parece estranho, mas é delicioso. Nem sabia que se podia comer favas assim. Talvez não funcione sempre, mas estas, apanhadas no fim de semana no quintal da casa dos pais do meu companheiro de casa estavam uma delícia, frescas e estaladiças. Realmente uma nova experiência gastronómica.
E hoje um dia agridoce, com direito a um último passeio acompanhada pela cidade, um bom almoço na Piazza Santo Stefano, e um gelado de despedida na Funivia. Passei o resto do dia no hsopital, no simulador, para não ter que ir para casa sozinha. Mas o que vale é que a melancolia também passa rápido. Há que aproveitar os poucos dias que restam por estes lados. Your moment of zen:





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