Noite terrível. Entre a chuva de fim de mundo e a minha predisposição para sono merdoso passei uma noite agitadissíma, e esta manhã fui para o hospital em modo zombie. Cheguei ainda mais cedo que o habitual porque hoje tinha um plano: pedir aos internos uma cópia da folha da visita, onde estão os dados de todos os doentes internados. Para ver se começo a apanhar alguma coisa das visitas relâmpago. Acho que nem os italianos percebem bem o que se passa. Só percebo que o Professor Chefe toma a maioria das decisões... Portanto apareci na salinha dos médicos, armada do meu melhor sorriso, para ser recebida de forma meio mal encarada pelos seniores, um já conhecido, o outro não. Ao contrário de MCR, onde fui rapidamente adoptada no hospital, aqui não estou a ter a mesma facilidade. Em parte porque basicamente só os especialistas envolvidos no master falam inglês, e em parte porque os outros estão-se claramente a borrifar para a minha presença. Além de que ainda não percebi o que andam a fazer todo o dia. Há duas salas de bloco em funcionamento e duas consultas por dia. Mas eles são 10 especialistas e 7 internos. Não deve haver trabalho para todos, porque ao longo do dia vão passeando pelo bloco, ficam um bocadinho, mandam umas bocas e seguem. Portanto, o meu plano de ataque passa por fazer amizade com os internos, que pelo menos arranham inglês.E pode ser que me consigam explicar como as coisas funcionam por aqui. Por exemplo, quando é que eles operam, que até agora não vi interno nenhum a fazer nada... Bem, continuando, apesar do ar enfadado dos dois senhores mais velhos, lá descobri um interno no cantinho, a quem me apresentei e pedi a folha da visita. Primeira meta conseguida. Agora só falta perceber o que é que as abreviaturas significam...
Depois da visita segui para o bloco, para uma bela cirurgia minimamente invasiva: ressecção de sequestro pulmonar intralobar numa criaturinha de 6 meses. Para não variar, 3 especialistas a operar. Começou tudo muito bem, tiraram.se muitas fotos, mas aos 10 minutos de jogo optaram por converter por dificuldades na ventilação do doente. Ohhhhhhh... Mas nem tudo estava perdido. Graças à fabulosa sala OR1 , que para além de uma câmara no pantoff tem também duas câmaras no tecto que podem ser controladas remotamente na consola, e que estão num ângulo que permitem apontar para o interior das cavidades. De modo que só me faltou o balde de pipocas, fiquei sentadinha e descansada a ver o filme na TV. Depois supostamente haveria um hipospadias, mas que foi chumbado por febre à chegada. Pelo que eu percebi não há consulta prévia de anestesia, os doentes são vistos pelo pediatra assistente fora do hospital e este manda uma cartinha a dizer que está tudo bem.
Poderia ter fugido às 13h para ver os modelos anatómicos que estão noutra colecção da universidade, mas parecia mal. Para além disso quem estava de banco hoje era um dos doutores simpáticos do master's, pelo que resolvi ficar pelo hospital à espera que coisas acontecessem. E onde fiquei eu? No meu gabinete! onde tenho uma
mesa, uma cadeira e um candeeiro só para mim. Sem interrupções. Sem barulho. Com uma cadeira com apoio lombar e um candeeiro com muita luz. Tão bom. Hoje estudei mais do que nos 2 meses prévios. Porque fiquei de castigo no hospital, e porque a capacidade de concentração e a resistência são outras quando não se faz bancos. Mesmo que não se durma à mesma.
Às 17h, quando me preparava para fazer uma saída discreta, o doutor simpático apareceu para me dizer que havia uma apendicite, e que entraria no bloco em breve. Yupi. Voltei para o meu gabinete e estudei mais um pouquinho, que é como quem diz até às 19h30, que foi quando o doente entrou no bloco. Afina há coisas que são mesmo iguais em todos o lado... Enquanto esperava que a cirurgia começasse, meti conversa com outros dois internos que estavam na sala. Jackpot. Os dois super simpáticos, um cheio de vontade de falar inglês e a outra de corrigir o meu italiano macarrónico. Devagarinho ainda conquisto esta malta. Vão ver, ainda vou acabar por ter uma festa de despedida!
E foi assim que ao fim de 8 anos no mundo da cirurgia pediátrica, que via a minha primeira apendicite "laparo-assistida pelo umbigo". Com uma óptica com canal de trabalho e um trocar umbilical com um balão na extremidade que evita as fugas quando se alarga o orificio umbilical até eu! O apêndice foi amigo, o cego pouco preso, e a cirurgia rápida. Interessante e menos laboroso. Mas um pouco preguiçoso para o meu gosto.
Consegui portanto sair do hospital 13 horas depois de lá ter entrado, com os supermercados à minha volta já todos fechados. Portanto amanhã não tenho outra forma de sustento que não seja uno corneto di cioccolato e uno capuccino ao pequeno almoço. Ohhhhhh.... Quanto ao jantar, vim todo o caminho a pensar nos tortelinnis que tinham sobrado do outro dia, e que ainda deviam estar bons. Só quando cheguei a casa é que me apercebi de um pequeno problema: não há microondas. Mas há internet, e depois de ver como se aquece comida no fogão (eu sei, eu sei, tive uma existência privilegiada), jantei uma belissíma pasta já não tão fresca mas ainda muito saborosa.
E agora vou colapsar, porque a primeira reunião de amanhã é às 07:30...

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