Dia agitado no hospital. Cirurgia electiva cancelada às 10:30 por causa de uma urgência neonatal. Que só entrou na sala às 13:30. Nos entretantos surgiu outra urgência neonatal, que acabou por ser operada nos cuidados intensivos neonatais, onde a criatura já estava internada. O que acabou por ser uma oportunidade de conhecer outro pavilhão do Hospital. A UCIN fica na Maternidade, edificio vizinho ao da Pediatria. Tem várias salas, mas é pouco ampla, 4 incubadoras por quarto e um corredor estreitinho. Depois ainda fui de "shadow" ver um doente internado na Cardiologia Pediátrica. Este pavilhão ja conhecia, é o mesmo da RM. Ainda cheira a tinta, de tão novo. Aqui sim os quartos são enormes, duas camas por quarto, corredores onde dá para jogar futebol. É a diferença entre o "hospital histórico", construído há cem anos e reaproveitado desde então, e o "hospital moderno". Mesma sensação que tive quando estive no Hospital de Braga: espaço. Bem, já conheço 4 pavilhões do hospital, só faltam outros 15...
De tarde fui para o playground. Numa das gavetas encontrei um modelo para anastomose intestinal que funciona bem para a sutura contínua, e acabei por me divertir mais de uma hora ao som de uma playlist fabulosa do Spotify, repleta de Motown animada. Estava no meio da minha melhor prestação tanto cirurgíca como musical, a cantar ao berros junto com a Aretha (R E S P E C T!), quando ouvi uma risada atrás de mim: fui surpreendida pela senhora da limpeza, que ao que parecevnão está habituada ao karaoke cirúrgico e só se ria e me pedia desculpas. Tomei como sinal de que era hora de ir embora e saí cedíssimo, às 18:30.
Apesar do calor (30o), resolvi tentar ir ao correios, no centro da cidade. Para minha alegria ainda estavam abertos às 18:50. Tirei uma senha e fiquei sentadinha a ouvir musica, à espera que despachassem as 14 senhas antes da minha. Passado uns minutos noto que algo se está a passar, tiro os fones e percebo que está um grupo de pessoas aos berros com um dos senhores dos correios. Pensei bolas, estes italianos falam mesmo alto, voltei a por os fones e continuei à espera. Até que um senhor me bateu no ombro e avisou que os correios estavam fechados. Basicamente fecham às 19, mas por alguma razão a máquina não parou de distribuir senhas mais cedo, e era por isso que as pessoas estavam tão irritadas. Ainda não é desta que os postais seguem...
Entretanto, recebi um convite muito agradável para ir jantar a casa dos amigos italianos do meu companheiro de casa. Tendo em conta que já estava no centro, recebi indicações sobre como lá chegar de autocarro. Sou basicamente uma local. Portanto, depois de comer um gelado como antipasto (estava em frente à melhor gelataria onde alguma vez fui, parecia falta de educação deixar passar a oportunidade), segui para fora da muralha.
Os amigos moram ao lado do estádio, mesmo em frente à subida para a Basílica de San Lucca (onde pretendo ir este fim‑de‑semana), num rés do chão com um quintal delicioso, ideal para um dia quente como este. Para além dos amigos, um casal italo-australiano que estava de visita e uma amiga brasileira que está aqui num workshop de teatro. Vim para Bolonha comer feijoada preparada por uma italiana ( que estava muito boa) e brigadeiro.
Entre as várias ervas aromáticas que perfumavam o pequeno quintal descobri um manjerico (que eles chama basilico greco e usam nas saladas), basilico nero (mangericão com folhas de cor bordausx escuro, quase preto), e finochietto, que é use nome de afastador cirúrgico, mas na realidade é funcho. A dona da casa, que é um amor de pessoa, ainda me perguntou se eu queria levar umas sementes para plantar. Com o meu "black thumb of death" não me pareceu grande idéia.
Noite super agradável, transitando sem querer entre o italiano e o inglês, com algum português pelo meio. Assim como eu durante anos repeti as minhas duas palavras favoritas de italiano (aprendida algures durante o Erasmus valenciano num contexto que não me recordo), pipistrello e accendino, eles um dia irão surpreender um amigo português com "feijoada", "garfo" e "jabuticaba".
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