terça-feira, 9 de maio de 2017

Il maiale

 Depois de várias sessões de conversa, finalmente chegou o dia da sessão prática do master. Às 07:30 em ponto estava à porta do Ospedale, com um olho aberto e o outro fechado (o que é feito do morning person me?). Por alguma razão técnica que me ultrapassa, mudámos de roupa para fatos de bloco no hospital, e fomos já vestinhos para a faculdade de veterinária. O que significava que iríamos voltar com os mesmos fatinhos depois de um dia passado no meio dos porcos. Nice...
 O caminho para lá foi passado totalmente a dormir. Ao que parece não babei nem ressonei -perguntei à chegada. De qualquer forma, a única coisa que teria visto seria o carro da frente parado e chuva, muita chuva.
 O edifício da faculdade de veterinária não era propriamente muito impressionante, mas a faculdade é. Tem 175 anos, e é um centro de investigação e de cirurgia experimental onde entre outras coisas estão a desenvolver um fígado híbrido para circulação hepática extra-corpórea (whatever the f#$c that means). Ao longo do dia tive oportunidade de falar com alguns dos veterinários, descobrir uma série de coisas que desconhecia (como por exemplo que existe uma sub-especialização em Anestesia Veterinária e que fazem quase tudo que os anestesistas fazem, como epidurais, colocação de acessos centrais ecoguiados e entubações difíceis com fibroscópio) e ainda ter uma visita guiada ao novo bloco operatório que ainda está por estrear. a sala de operações de cavalos é particularmente interessante. Para além de ser enorme, para os cavalos poderem ser anestesiados em pé, tem na parede duas mangueiras. O meu italiano de principiante não deu para perceber com exactidão a explicação que foi dada, mas ao que parece o intestino do cavalo contém uma quantidade impressionante de m#$&a lá dentro, e as mangueiras ou servem para limpar o chão depois ou servem para fazer clisteres...
 Depois de uma café rápido partimos para as hostilidades. Um porco para cada 3 pessoas. Eu fui atribuída ao tutor que falava inglês. Durante a manhã deu para fazer algumas coisas engraçadas, nomeadamente uma nefrectomia e uma tentativa de Lich-Gregoir. Mas claramente não estava num grupo de laparoscopia avançada... Menos mal, normalmente me sinto um alien vindo do terceiro mundo nos cursos, neste até me senti proficiente. Em terra de cegos quem tem um olho é rei... Ainda consegui impressionar os italianos com o"home made endoloop". Tendo em conta que por aqui há quem faça apendicectomias com Ligasure fazer os próprios "nós" é mesmo coisa de pobrezinho...
 Depois do almoço, novo porco. Mas devido a falta de programação/comunicação era um porco muito pouco pediátrico... Depois de uma hora para chegar à cavidade abdominal (parte culpa da espessura da parede, parte culpa do cirurgião) demo-nos conta que dado o tamanho do animal não conseguíamos fazer a maioria dos procedimentos programados - os intrumentos não chegavam lá, para além do facto de ter um fígado que ocupava 2/3 da cavidade abdominal. Acabamos a fazer apenas anastomoses intestinais. Ao menos o nosso animal teve mais sorte que o dos vizinhos, que acabou exsanguinado com uma lesão incontrolável da supra-hepática aos 15 minutos de jogo...
 A volta foi para mim pouco aventureira, a ouvir o meu podcast e a apreciar a paisagem. Achei que o condutor da mini-van ia um pouco depressa, mas assumi que era a condução italiana. Só me apercebi que afinal estava errada quando chegamos ao hospital e reparei nas caras pálidas à saída da carrinha. Ao que parece toda a gente ia virando o barco com as acelerações e curvas do senhor. Confirma-se mais uma vez a minha imunidade ao enjoo do movimento.
 Depois um longo banho, fui jantar com uma das colegas a um sushi ao lado do hospital. Pelos vistos em Bolonha eu perco a capacidade de comer como uma pessoa normal. E depois fico assim, a fazer tempo no teclado, à espera que a indigestão passe...


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