domingo, 21 de maio de 2017

La picola spiaggia

 Pela primeira vez em pelo menos 10 anos usei o mesmo gel de banho/shampoo para tomar banho, lavar a cara e o cabelo. Vida minimalista é assim, e o cabelo curto ajuda. Inicialmente estava muito feliz com o resultado, a pensar que a indústria dos produtos capilares na realidade era uma farsa desnecessária inventada por publicitários. Até que me vi ao espelho, e compreendi porque que é na realidade uma indústria bilionária: porque é necessária. Ainda bem que vou passar o dia de chapéu.
Resolvi que ao invés de passear por Nápoles, plano inicial, iria aproveitar a manhã para ir a Sorrento e à tarde às ruínas de Ercolano. Na minha cabeça imaginei que a viagem no Circumvesuviana seria calma e contemplativa, a ver a bacia do mediterrâneo e a ter pensamentos elevados, porque seguramente às 09h da manhã de domingo só haveria turistas até Pompéia, e eu iria seguir caminho. Erro crasso. Ao que parece a juventude digamos menos polida de Nápoles pelos vistos gosta de apanhar o comboio para ir à praia no fim de semana. Portanto o comboio estava repleto de adolescentes barulhentos com maus cabelos e pouco estilo. Pelo que percebi o must have look para rapazes é rapado de ambos os lados com um crista de jogador de futebol no meio e para as meninas é rapado na nuca e o resto com tranças. Jovens que ainda não devem atingiram o estádio V de Tanner com tatuagens. Então é assim que se sente uma velha do Restelo no meio da juventude… Para meu gáudio sairam 4 paragens antes de Sorrento, porque senão teriam arruinado de vez a minha imagem classy da cidade.
Sorrento exsuda um charme anos 30, pelo aspecto dos edifícios e os hotéis com nomes com Excelcior Vittoria e Grand Hotel Royal. E porque deve ter sido nessa década que nasceram a maioria dos visitantes. A cidade é pequena, e rapidamente se atravessa a pé. O que me surpreendeu foi que para uma cidade balnear vê-se muito pouca praia. Primeiro porque a cidade está numa escarpa, e a praia está
láááááá em baixo. Quer dizer, aquilo que passa por praia por aqui: meio metro de areia e depois umas passadeiras flutuantes com espreguicadeiras. Segundo, porque basicamente todo o terreno à beira mar
está ocupado por casas apalaçadas e hotéis. Só há um ou outro miradouro para ver o mar. Mas a vista vale a pena, as escarpas com as casas encavalitadas no meio do verde da vegetação, toda a baía mediterrânea até Nápoles, o Vesúvio em todo o seu esplendor. Percebo o fascínio.
Depois de ver a vista bonita, fui ver o resto da cidade. A zona velha, que são duas ruas cheias de lojas de bugigangas turísticas, onde o cheiro do limoncello é omnipresente e enjoativo. A zona nova, que também não são muito mais ruas. E pronto. Tive tempo de ver as exposições da Vila Fiorentina: fotografias da Sophia Loren (dela, não tiradas por ela) e esculturas de um senhor chamado Mário Pugliese, que entre outras coisas faz uns insectos gigantes de metal e cerâmica com pequenos detalhes incrustados que eu compraria se tivesse dinheiro.
Encontrei sem querer a Basilica de Santo Antonino, onde deixam como agradecimento ao santo efigies em prata (parece-me) daquilo que ele curou: pernas, intestinos, tórax, corpo inteiro… Uma versão em metal das oferendas em cera ao velho Sousa Martins. Descobri o meu próximo carro, um Fiat dos antigos no meu azul preferido.  Pelo meio paragem
para comer/beber um caffè crema, uma espécie de café gelado cremoso. Ainda ponderei beber café no bar do Hotel Excelcior Vittoria, porque imaginei que a vista era fabulosa, mas com o cabelo assim tão manhoso não me senti à altura. Almocei no restaurante sugerido pela minha professora de italiano, que a dada altura foi guia turística nesta zona. Sem vista, mas muito agradável, e com um aspecto tão cuidado que me arrependi de ter entrado pela porta dos fundos sem ver o menu e os preços primeiro. Quando chegou a carta suspirei de alívio, ao menos as pizzas eram a um preço acessível. E maravilhosas. Para compensar o mau dia gastronómico anterior. De sobre um mignon baba, supostamente especialidade da zona.
 Ainda sonolenta do almoço menos que ligeiro voltei à estação, para apanhar o Circumvesuviana em direcção a Ercolano Scavi. Pela primeira vez consegui ir sentada. A paisagem inicialmente é muito bonita, mar de um lado, montanhas verdes no outro, mas rapidamente passa a construções degradadas e estações recobertas de graffiti. Os arredores de Nápoles não são bonitos, e os habitantes também não me deixaram grande impressão. Vi deitarem lixo para o chão, pela janela do comboio, sem nenhum cuidado. A imagem do italiano glamouroso claramente não se encaixa aqui. E também não são simpáticos, mesmo quando educados falam e agem de modo agressivo. Tirando Sorrento nem mesmo em Pompéia, local turístico por excelência, me senti bem. Não me imagino a voltar para estes lados.
Bem, o Ercolaneo. É o vizinho mais pequeno e desconhecido de Pompéia. Tal com esta foi soterrado pela erupção de 79 ad, mas enquanto em Pompéia foram as cinzas em Ercolaneo foi mesmo lava. Que conservou a cidade de forma diferente. Assim que cheguei às ruínas fiquei surpreendida com o facto de estarem mesmo no meio das casas. E da profundidade a que foram soterradas. Estão
basicamente numa cratera escavada a quase 20 metros de profundidade. Parece mesmo uma cidade fantasma desenterrada.
Desta vez sem tempo para visitas guiadas resolvi alugar o audioguia. Assim que comecei a visita arrependi-me de não ter feito o mesmo em Pompéia para a 2@ parte da minha visita. A informação é clara e interessante, e a qualidade do áudio surpreendentemente boa. No entanto, como em Pompéia, metade dos locais sugeridos para visitar estavam fechados. Mesmo assim deu para ver coisas lindíssimas. Os frescos são bonitos, mas o que realmente me impressionou foram
os mosaicos. Neste momento já me sinto uma verdadeira especialista na arquitectura do período. Até posso dizer que o meu LeeMobile original não tinha um buraco no tecto mas sim um compluuium.
Das ruínas de volta à Nápoles moderna. Mais uma viagem no Circumvesuviana, a última. Cheguei sem tempo para ver o que fosse da cidade, mas ainda conseguir comprar sfogliatellas para levar para o meu companheiro de casa. E dois novos livros em italiano para me fazerem companhia na viagem para cada, que o primeiro já acabou. Igualmente básicos, para poder entender a ideia geral mesmo sem perceber os pormenores. Ainda não é desta que leio Umberto Eco no original...



Sem comentários:

Enviar um comentário