quarta-feira, 31 de maio de 2017

Il pignoletto

 Dia blá no hospital. Programa operatório terminado às 12:30. Numa tentativa de fazer render os últimos dias dediquei 3 horas ao Campbell Walsh (tudo o que você sempre quis saber sobre refluxo vesico-uretral mas não teve paciência de ler) e depois fui para o simulador. Finalmente consegui um modelo mais ou menos fidedigno para a sutura da pieloplastia, mas ao fim de 45 minutos tive uma fúria e fui embora. Sem alguém para manobrar a câmara é difícil fazer algo mais complexo que a sutura simples, e hoje não me sentia com grande paciência- 
 Tentando ser uma pessoa positiva, que não só vê o copo meio cheio
como o vê mesmo cheio, resolvi procurar uma enoteca para provar o pignoletto, um vinho branco da região de Bolonha. Acabei numa rua pequenina e quase medieval, cheia de bares e restaurantes, que fica a um quarteirão da Piazza Maggiore e que por alguma razão me tinha escapado até agora. Acabei sentando na Enoteca Historical Faccioli, numa mesa ao sol do fim da tarde, e bebi um belo pignoletto
fresquinho e um sanduíche com a verdadeira mortadela (que também é originária de Bolonha). Aproveitei o fim da tarde para acabar mais um livro em italiano e chegar à conclusão que se quero linguagem simples mais vale comprar livros infantis que a porcaria que acabei de ler. Equivalente literário do Campari. 

 No caminho de volta a casa, por aquela que considero a minha rua, comecei a fazer a lista das despedidas. Sem grande mágoa, porque como dizia o poeta "que seja eterno enquanto dure". A melhor definição que encontrei para este período não foi estágio, ou férias disfarçadas, mas sim "trintasmus", termo cunhado por um dos amigos italianos. É uma espécie de Erasmus aos trinta, com mais trabalho, menos alcóol e comida de muito melhor qualidade, e em que depois do horário laboral ainda há energia para viver. Agora o desafio é conseguir manter o ritmo em casa...

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aggionarmento di fine settimana

 Passear com companhia tem outro encanto. Na sexta feira mostrei alguns dos meus locais favoritos: o museu do Palazzo Poggi, Basílica Santo Stefano, a Sala Borsa com o seu tecto fabuloso e ruínas romanas na cave, via San Vitale, Piazza Cavour. E conheci alguns novos, como o Palazzo Acursio, com as suas salas incrivelmente decoradas. Todo este percurso cultural foi ponteado por paragens gastronómicas. Almoço num favorito bolonhês, SfogliaRina, que me foi recomendado por vários locals e onde eu até já tinha comprado pasta fresca, mas não experimentado a parte de restaurante. Um gnocchi delicioso, com molho de pecorino, mas que apesar de tudo me deixou com saudades do gnocchi da minha mamma. Pausa para gelado na Lilasu, que para além de gelados deliciosos fica por baixo de uma arcada medieval lindíssima. Finalmente fui beber um aperitivo no Le Stanze, o bar que fica numa antiga capela, com o tecto e paredes decorados com frescos. No entanto, nem a beleza do local conseguiu tornar o meu cocktail palatável… A minha ideia de que Martini nunca pode correr mal morreu aí. E ligeiramente tocados fomos jantar à minha osteria favorita, del’Orsa, onde o jantar foi tão lauto que fui obrigada a dividir um tiramisu, porque não havia condições para mais.
Em tão pouco tempo já sinto a cidade como minha. Com os meus locais preferidos, os pequenos pormenores escondidos que descobri. Mas também é bom perceber que ainda há tanto para conhecer. Um mês não é suficiente para tudo, mas dá para muita coisa. E renova a vontade de quando voltar para casa manter o espírito de descoberta urbana, passear mais, sair mais, viver mais a cidade. Nada como ser turista na nossa própria cidade.

 No sábado, day trip a Veneza. Decisão espontânea da noite anterior. Uma revisitação em idade adulta, para os dois. Graças ao train hub de Bolonha, duas horas de viagem no comboio baratinho (frecciarossa é só para ocasiões especiais). Por coincidência, a minha intrépida companheira de viagens anteriores também estava em Veneza. Nada como ser chique e combinar um café em frente ao Canal Grande.
 A estação de Santa Lucia desemboca directamente no Canal Grande, de um modo quase teatral. Depois de 5 minutos a apreciar a beleza do local, voltei a entrar na estação para ir ao Tourism Office pedir um mapa. E
descobrir que eles realmente estão fartos de ser simpáticos para os turistas, porque me cobraram 3 euros. A cidade é maior do que eu me lembrava, mas mesmo assim pequena o suficiente para se desfrutar num dia, principalmente porque o plano era só andar perdidos nas ruas e resistir à tentação de entrar nos muitos museus.
 Pouco depois encontramos a minha intrépida companheira de viagem e os seus companheiros de viagem. Decidimos juntar-nos ao plano deles e seguir para um free walking tour (conceito que não tenho encontrado nesta viagem...). Foi uma boa maneira de ver Veneza com outros olhos, e por outros recantos. O guia era um venentian born and raised, músico e jornalista, que fazia o tour de forma gratuita aos fins de semana e que todo recebido seria para uma organização que se ocupa de tornar a cidade mais transitável para pessoas em cadeiras de rodas. Nunca tinha pensado no assunto, mas realmente não deve ser fácil atravessar as mil pontes e pontesinhas e ruas estreitas... Portanto, logo ao início assegurou uma propina razoável. 
 Começamos no ghetto e dali fomos saltitando de bairro em bairro sem nos darmos conta, quase sempre por ruas quase desertas. Praça de São Marcos e outros hits não fazem parte do trajecto. A imagem de decadência que guardava da Serenissíma ainda se mantém, mas desta vez transmitiu-me uma sensação de decadência charmosa, quase propositada, e não de ruína inevitável como da outra vez. 
 Almoço na Piazza Margheritta, uma pasta com pesto que não envergonhava, acompanhada de um Lambrusco que até podia ser manhoso mas estava tão fresco e estava tanto calor que me pareceu néctar dos Deuses. Após a refeição, dissemos adeus à intrépida companheira de viagem e amigos, que seguiram para a ilha de Murano, enquanto nós fomos andando entre perdidos e achados até à Praça de
São Marcos. Não me recordava da Basílica ser tão ornada e bonita. Como bons turistas pelintras, ficamos sentados num degrau debaixo das arcadas, a apreciar a beleza e a atmosfera do local, mas sem vontade de largar 7 euros por um café. Com 2 horas até ao comboio fomos voltando sem pressas até à estação. Ainda tivemos tempo para para numa pracinha anónima, em frente a um pequeno canal, para beber o pior aperitivo de todos os tempos numa esplanada muito simpática. Se o Martini do dia anterior tinha sido mau, este Campari era muito pior. A única coisa boa que posso dizer é que a azeitona estava boa. Mas eu aprendo com os meus erros, da próxima  vez bebo uma cerveja.

 Domingo, dia de peregrinação. Depois de um pequeno almoço tardio reforçado por um gelado da Funivia, fizemos os 11km até ao Santuário della Madonna di San Luca. Caminhamos abrigados do sol, debaixo dos pórticos, com uma subida moderadamente agressiva no final. Deve ser um dos percursos dos weekend warriors de Bolonha, com muita gente a subir devagar e a descer depressa de fato de treino. Nós conseguimos a proeza de nos desencontrarmos do
ícone da Virgem, que desce numa procissão até à Igreja de São Pedro no centro da cidade a meio de Maio e regressa 15  dias depois. O que explicava as bandeiras vermelhas, as passadeiras e os altifalantes pelo caminho: a subida começava nesse dia às 16h (que foi mais ou menos quando lá chegamos) e atinge o seu destino por voltas das 20h. Paciência.... A vista do Santuário é impressionante, mas fica de "costas voltadas" para a cidade. Vêem-se os montes, florestas e prados à volta de Bolonha, mas não Bolonha em si. Para ver La Grassa é preciso pagar 5euros e subir mais 110 degraus, até à cúpula. Depois de uns minutos a recuperar o fôlego lá fomos nós. Vista do alto a cidade é tão pequenina! E tem mais torres do que estava à espera. Consegui identificar quase todos os pontos importantes, e me senti uma local. 
 Para recuperar desta aventura, seguimos para o centro (desta vez de autocarro, porque estávamos cansados e eu como local que quase sou conheço os percursos), para o Quadrilátero, à procura de um lanchinho. Que acabou por ser uma tábua de enchidos e queijos e uma garrafa de Lambrusco (Aperol e companhia já não me apanham!). Devidamente reconfortados, fomos jantar. Osteria Broccaindosso não desiludiu, tanto nas pastas como na sobremesa. 

 Segunda feira tive que ir trabalhar, porque de todos os dias em que podiam ter operado um Hirschsprung com tempo abdominal por via laparoscópica resolveram escolher o dia em que a cara metade estava cá. Humpf. Cirurgia interessante, mas mais laparo-assistida que laparoscópica...
 Uma das vantagens de ter uma cara metade que partilha os meus interesses é que dá para conjugar turismo e trabalho. Portanto à tarde ele se juntou a mim e fomos assistir a uma cirurgia robótica. Muuuuuuiiiiiiitooooooo tempo para preparar o doente, pouco para operar. Assim ainda tivemos tempo de ir comer um gelado ao fim do dia. Infelizmente a Funivia estava fechada, e tivemos que nos contentar com um gelado de categoria inferior. Estou tramada quando voltar para casa. 
 À noite, para me vingar da feijoada brasileira preparada por uma italiana, fiz um jantar italiano em casa. Bruschetta com tomate e tortelinni in brodo. Para sobremesa, algo totalmente inusitado. Favas cruas com queijo. Parece estranho, mas é delicioso. Nem sabia que se podia comer favas assim. Talvez não funcione sempre, mas estas, apanhadas no fim de semana no quintal da casa dos pais do meu companheiro de casa estavam uma delícia, frescas e estaladiças. Realmente uma nova experiência gastronómica.

 E hoje um dia agridoce, com direito a um último passeio acompanhada pela cidade, um bom almoço na Piazza Santo Stefano, e um gelado de despedida na Funivia. Passei o resto do dia no hsopital, no simulador, para não ter que ir para casa sozinha. Mas o que vale é que a melancolia também passa rápido. Há que aproveitar os poucos dias que restam por estes lados. 

 Your moment of zen:

 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Padiglione 13

 Dia cirúrgico sem grandes emoções. Vi mais um hipospadias, muito bonitinho, com algumas variações da técnica que usamos na casa mãe. Dada a noitada não programada de ontem não tive tempo de ir ao supermercado, portanto hoje não levei almoço. E logo hoje
decidiram não encomendar a pasta magnífica que vejo toda a gente a almoçar enquanto eu como saladinha (tenho que contrabalançar os gelados). Portanto lá fui sozinha ao pavilhão 16 (mais um!), comprar uma sandocha ao bar. O complexo hospitalar é
realmente agradável. Não admira que as pessoas aproveitem para correr dentro do hospital: seguro, iluminado, piso regular e agradável, cheio de árvores. Como estava um dia bonito resolvi aproveitar o local e almoçar num banco à frente do hospital, por baixo de umas árvores. Acabei por ter direito a um episódio de BBC Vida selvagem ao vivo. Primeiro reparei num passarão que estava a saltitar por baixo da árvore, quase do tamanho de uma gaivota. Castanho, mas com uma risca azul interessante nas asas, e um pulular cheio de energia. Andou para a frente e para trás, e zás, de repente saiu num vôo picado até à outra árvore e
abocanhou uma largarta verde gigante que eu não tinha visto, apesar de já ter também passado 5 minutos a olhar para a árvore (não tinha literatura para me acompanhar). Durante 1 minuto a lagarta se esforça para fugir mas acabou por virar almoço. O passarão voltou aos seu pulos, e eu perdi o apetite.
 Aproveitando o dia sem grande interesse no bloco fui para o playground mais cedo, onde voltei a encontrar a senhora da limpeza, que desta vez fez uma piadinha sobre como me apanha sempre a cantar. Só não comentou sobre a qualidade da minha voz...
 Com todos os objectivos laborais do dia cumpridos, saí do hospital em direcção ao centro da cidade para ir à SfogliaRina, uma instituição da pasta fresca bolonhesa. Ainda ponderei comprar uns tortelonnis, mas são mais difíceis de fazer do que estava à espera, pelo que me fiquei pelos tortelinnis. Descobri também que tem um mini-restaurante nas traseiras da loja, portanto já sei onde vou almoçar com a cara metade amanhã.No caminho para casa, mais uma paragem na gelataria da Piazza Cavour, para continuar a trabalhar num outro objectivo: provar todos os sabores da gelataria. Eight down, 12 to go. I am a woman on a mission.
 Regresso a casa acompanhada pelas histórias do podcast.  Depois de tanto tempo a procurar contadores de estórias encontrei um manancial sem fim.
 E agora vou a correr para o aeroporto, matar saudades da cara metade que está quase a aterrar.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Il finochietto

 Dia agitado no hospital. Cirurgia electiva cancelada às 10:30 por causa de uma urgência neonatal. Que só entrou na sala às 13:30. Nos entretantos surgiu outra urgência neonatal, que acabou por ser operada nos cuidados intensivos neonatais, onde a criatura já estava internada. O que acabou por ser uma oportunidade de conhecer outro pavilhão do Hospital. A UCIN fica na Maternidade, edificio vizinho ao da Pediatria. Tem várias salas, mas é pouco ampla, 4 incubadoras por quarto e um corredor estreitinho. Depois ainda fui de "shadow" ver um doente internado na Cardiologia Pediátrica. Este pavilhão ja conhecia, é o mesmo da RM. Ainda cheira a tinta, de tão novo. Aqui sim os quartos são enormes, duas camas por quarto, corredores onde dá para jogar futebol. É a diferença entre o "hospital histórico", construído há cem anos e reaproveitado desde então, e o "hospital moderno". Mesma sensação que tive quando estive no Hospital de Braga: espaço. Bem, já conheço 4 pavilhões do hospital, só faltam outros 15...
 De tarde fui para o playground. Numa das gavetas encontrei um modelo para anastomose intestinal que funciona bem para a sutura contínua, e acabei por me divertir mais de uma hora ao som de uma playlist fabulosa do Spotify, repleta de Motown animada. Estava no meio da minha melhor prestação tanto cirurgíca como musical, a cantar ao berros junto com a Aretha (R E  S P E C T!), quando ouvi uma risada atrás de mim: fui surpreendida pela senhora da limpeza, que ao que parecevnão está habituada ao karaoke cirúrgico e só se ria e me pedia desculpas. Tomei como sinal de que era hora de ir embora e saí cedíssimo, às 18:30.
 Apesar do calor (30o), resolvi tentar ir ao correios, no centro da cidade. Para minha alegria ainda estavam abertos às 18:50. Tirei uma senha e fiquei sentadinha a ouvir musica, à espera  que despachassem as 14 senhas antes da minha. Passado uns minutos noto que algo se está a passar, tiro os fones e percebo que está um grupo de pessoas aos berros com um dos senhores dos correios. Pensei bolas, estes italianos falam mesmo alto, voltei a por os fones e continuei à espera. Até que um senhor me bateu no ombro e avisou que os correios estavam fechados. Basicamente fecham às 19, mas por alguma razão a máquina não parou de distribuir senhas mais cedo, e era por isso que as pessoas estavam tão irritadas. Ainda não é desta que os postais seguem...
 Entretanto, recebi um convite muito agradável para ir jantar a casa dos amigos italianos do meu companheiro de casa. Tendo em conta que já estava no centro, recebi indicações sobre como lá chegar de autocarro. Sou basicamente uma local. Portanto, depois de comer um gelado como antipasto (estava em frente à melhor gelataria onde alguma vez fui, parecia falta de educação deixar passar a oportunidade), segui para fora da muralha.
 Os amigos moram ao lado do estádio, mesmo em frente à subida para a Basílica de San Lucca (onde pretendo ir este fim‑de‑semana), num rés do chão com um quintal delicioso, ideal para um dia quente como este. Para além dos amigos, um casal italo-australiano que estava de visita e uma amiga brasileira que está aqui num workshop de teatro. Vim para Bolonha comer feijoada preparada por uma italiana ( que estava muito boa) e brigadeiro. 
 Entre as várias ervas aromáticas que perfumavam o pequeno quintal descobri um manjerico (que eles chama basilico greco e usam nas saladas), basilico nero (mangericão com folhas de cor bordausx escuro, quase preto), e finochietto, que é use nome de afastador cirúrgico, mas na realidade é funcho. A dona da casa, que é um amor de pessoa, ainda me perguntou se eu queria levar umas sementes para plantar. Com o meu "black thumb of death" não me pareceu grande idéia.
 Noite super agradável, transitando sem querer entre o italiano e o inglês, com algum português pelo meio. Assim como eu durante anos repeti as minhas duas palavras favoritas de italiano (aprendida algures durante o Erasmus valenciano num contexto que não me recordo), pipistrello e accendino, eles um dia irão surpreender um amigo português com "feijoada", "garfo" e "jabuticaba". 

terça-feira, 23 de maio de 2017

La cucitrice

 Dia totalmente laparsocópico, nada extremamente diferenciado mas interessante. Aqui a abordagem laparoscópica é tão comum como a aberta, ninguém se chateia, o material é montado com a mesma celeridade e à vontade que a mesa dos instrumentos. Mas só os mais velhos (e com isso me refiro à geração dos cinquenta para cima) é que tem verdadeiro à vontade. Os mais novos não tem o mesmo desempenho. Também, como é possível, se não operam? Mas trabalham muito. Eu chego às 07: e saio depois das 19 e os internos e especialistas recentes já lá estão quando eu chego e ainda lá ficam quando eu saio. E estão de banco a cada 4 dias. Ontem uma das internas mais novas me dizia que eles aprendem a operar observando os mais velhos. Lógico, e totalmente válido e indispensável. E o gesto, a "memória muscular"? Há coisas que só se aprende fazendo. A casa mãe tem os seus defeitos, mas apesar de tudo ainda vai dando oportunidades à malta jovem.
 Depois do final do programa cirúrgico (e de uma biópsia renal por retroperitoneoscopia de urgência) fui brincar para o meu playground. E não gostei quando cheguei à sala dos simuladores e estava lá outra pessoa, no "meu" simulador - aquele que já está ajustado à minha altura e tinha preparado o meu modelo para suturas contínuas. Um interno intruso de Urologia. Rapaz simpático, acabamos por conversar um pouco, e confirmar a minha suspeita que nenhum interna opera muito por estes lados, independente da especialidade. Disse uma coisa interessante: que faziam muita endourologia, alguma laparoscopia, até robótica, mas nas cirurgias "open" os internos eram sempre 2º ou 3º ajudante. Ou seja, já brincou com o DaVinci, mas nunca fez uma lombotomia. Não posso deixar de pensar que isto é uma inversão dos princípios,,,
 A minha tentativa de modelo para pieloplastia baseada num artigo
em que utilizavam uma luva falhou miseravelmente. Tentar suturas uma luva azul com fio Ethibond 5-0 azul com câmara fixa não é fácil. Amanhã tento novamente, desta vez com a luva de cozinha. Acabei por experimentar outros materiais, mas nenhum funcionou muito bem. Mesmo assim acabei por passar hora e meia a brincar às suturas. Um dos objectivos desta temporada é aprender a segurar os instrumentos com mais suavidade. Hoje para não variar ainda tenho parestesias no 3º dedo da mão esquerda... 
 Uma boa novidade: encontrei queijo sem lactose! O que é um
espetáculo, tendo em conta que estou a racionar os comprimidos de lactase. A parte má é que como todo o queijo sem lactose não é propriamente muito saboroso... Acho que prefiro continuar a viver perigosamente...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Veni, vidi, DaVinci

 Manhã urológica: dois hipospadias distais seguidos. Snodgrass abastardado, com dissecção ventral mínima e reconstrução do prepucio. Ficaram bonitos, mas não me convenceram.
Esta tarde finalmente conheci a outra sala e o robot, que estão no bloco central onde operam todas as especialidades excepto os meninos mimados da pediátrica e cardiotoracica. Ter uma casinha pequenina, isolada e clássica como a nossa é simpático, mas viver num arranha-céus high tech cheio de vizinhos porreiros e gadgets também deve ser bom. Um bloco novo, construído de origem, com 14 salas amplas, um armário de material com tudo o que a Covidien vende, um robot. No caminho para a sala de Cirurgia Pediátrica passei por dois transplantes. Deve ser bom viver no futuro…

 Quanto ao robot propriamente dito, inicialmente estava envergonhado, com os braços fechados, tentando passar despercebido no meio da sala. A parte inicial da cirurgia é como outra cirurgia laparoscópia qulaquer. Depois dos trocares colocados, começa a brincadeira. O robot começa a fazer barulhinhos de robot (claramente escolhidos por essa razão, duvido que sejam mesmo necessário), e se posiciona ao lado da marquesa, de acordo com a posição previamente programada. Depois os braços são ligados aos trocares e aos instrumentos, e a bola passa para o cirurgião na consola, que controla os movimentos de tudo. A imagem em 3D é realmente boa, e a posição parece muito confortável. A cirurgia de hoje foi simples, mais para manterem mão no robot do que propriamente para aproveitar as suas capacidades. Mesmo assim, gostei. Devo confessar que para mim uma das grandes vantagens é o operar sentado...
 Depois da demonstração maravilhosa, fui brincar para o centro de simulação. Hoje ainda continuei nos nós, amanhã pretendo experimentar uma idéia manhosa. 
 Ao fim da tarde, com a perspectiva de correr ou lavar roupa, resolvi ser dona de casa. E os meus pézinhos ainda estão a recuperar dos km do final de semana...

domingo, 21 de maio de 2017

La picola spiaggia

 Pela primeira vez em pelo menos 10 anos usei o mesmo gel de banho/shampoo para tomar banho, lavar a cara e o cabelo. Vida minimalista é assim, e o cabelo curto ajuda. Inicialmente estava muito feliz com o resultado, a pensar que a indústria dos produtos capilares na realidade era uma farsa desnecessária inventada por publicitários. Até que me vi ao espelho, e compreendi porque que é na realidade uma indústria bilionária: porque é necessária. Ainda bem que vou passar o dia de chapéu.
Resolvi que ao invés de passear por Nápoles, plano inicial, iria aproveitar a manhã para ir a Sorrento e à tarde às ruínas de Ercolano. Na minha cabeça imaginei que a viagem no Circumvesuviana seria calma e contemplativa, a ver a bacia do mediterrâneo e a ter pensamentos elevados, porque seguramente às 09h da manhã de domingo só haveria turistas até Pompéia, e eu iria seguir caminho. Erro crasso. Ao que parece a juventude digamos menos polida de Nápoles pelos vistos gosta de apanhar o comboio para ir à praia no fim de semana. Portanto o comboio estava repleto de adolescentes barulhentos com maus cabelos e pouco estilo. Pelo que percebi o must have look para rapazes é rapado de ambos os lados com um crista de jogador de futebol no meio e para as meninas é rapado na nuca e o resto com tranças. Jovens que ainda não devem atingiram o estádio V de Tanner com tatuagens. Então é assim que se sente uma velha do Restelo no meio da juventude… Para meu gáudio sairam 4 paragens antes de Sorrento, porque senão teriam arruinado de vez a minha imagem classy da cidade.
Sorrento exsuda um charme anos 30, pelo aspecto dos edifícios e os hotéis com nomes com Excelcior Vittoria e Grand Hotel Royal. E porque deve ter sido nessa década que nasceram a maioria dos visitantes. A cidade é pequena, e rapidamente se atravessa a pé. O que me surpreendeu foi que para uma cidade balnear vê-se muito pouca praia. Primeiro porque a cidade está numa escarpa, e a praia está
láááááá em baixo. Quer dizer, aquilo que passa por praia por aqui: meio metro de areia e depois umas passadeiras flutuantes com espreguicadeiras. Segundo, porque basicamente todo o terreno à beira mar
está ocupado por casas apalaçadas e hotéis. Só há um ou outro miradouro para ver o mar. Mas a vista vale a pena, as escarpas com as casas encavalitadas no meio do verde da vegetação, toda a baía mediterrânea até Nápoles, o Vesúvio em todo o seu esplendor. Percebo o fascínio.
Depois de ver a vista bonita, fui ver o resto da cidade. A zona velha, que são duas ruas cheias de lojas de bugigangas turísticas, onde o cheiro do limoncello é omnipresente e enjoativo. A zona nova, que também não são muito mais ruas. E pronto. Tive tempo de ver as exposições da Vila Fiorentina: fotografias da Sophia Loren (dela, não tiradas por ela) e esculturas de um senhor chamado Mário Pugliese, que entre outras coisas faz uns insectos gigantes de metal e cerâmica com pequenos detalhes incrustados que eu compraria se tivesse dinheiro.
Encontrei sem querer a Basilica de Santo Antonino, onde deixam como agradecimento ao santo efigies em prata (parece-me) daquilo que ele curou: pernas, intestinos, tórax, corpo inteiro… Uma versão em metal das oferendas em cera ao velho Sousa Martins. Descobri o meu próximo carro, um Fiat dos antigos no meu azul preferido.  Pelo meio paragem
para comer/beber um caffè crema, uma espécie de café gelado cremoso. Ainda ponderei beber café no bar do Hotel Excelcior Vittoria, porque imaginei que a vista era fabulosa, mas com o cabelo assim tão manhoso não me senti à altura. Almocei no restaurante sugerido pela minha professora de italiano, que a dada altura foi guia turística nesta zona. Sem vista, mas muito agradável, e com um aspecto tão cuidado que me arrependi de ter entrado pela porta dos fundos sem ver o menu e os preços primeiro. Quando chegou a carta suspirei de alívio, ao menos as pizzas eram a um preço acessível. E maravilhosas. Para compensar o mau dia gastronómico anterior. De sobre um mignon baba, supostamente especialidade da zona.
 Ainda sonolenta do almoço menos que ligeiro voltei à estação, para apanhar o Circumvesuviana em direcção a Ercolano Scavi. Pela primeira vez consegui ir sentada. A paisagem inicialmente é muito bonita, mar de um lado, montanhas verdes no outro, mas rapidamente passa a construções degradadas e estações recobertas de graffiti. Os arredores de Nápoles não são bonitos, e os habitantes também não me deixaram grande impressão. Vi deitarem lixo para o chão, pela janela do comboio, sem nenhum cuidado. A imagem do italiano glamouroso claramente não se encaixa aqui. E também não são simpáticos, mesmo quando educados falam e agem de modo agressivo. Tirando Sorrento nem mesmo em Pompéia, local turístico por excelência, me senti bem. Não me imagino a voltar para estes lados.
Bem, o Ercolaneo. É o vizinho mais pequeno e desconhecido de Pompéia. Tal com esta foi soterrado pela erupção de 79 ad, mas enquanto em Pompéia foram as cinzas em Ercolaneo foi mesmo lava. Que conservou a cidade de forma diferente. Assim que cheguei às ruínas fiquei surpreendida com o facto de estarem mesmo no meio das casas. E da profundidade a que foram soterradas. Estão
basicamente numa cratera escavada a quase 20 metros de profundidade. Parece mesmo uma cidade fantasma desenterrada.
Desta vez sem tempo para visitas guiadas resolvi alugar o audioguia. Assim que comecei a visita arrependi-me de não ter feito o mesmo em Pompéia para a 2@ parte da minha visita. A informação é clara e interessante, e a qualidade do áudio surpreendentemente boa. No entanto, como em Pompéia, metade dos locais sugeridos para visitar estavam fechados. Mesmo assim deu para ver coisas lindíssimas. Os frescos são bonitos, mas o que realmente me impressionou foram
os mosaicos. Neste momento já me sinto uma verdadeira especialista na arquitectura do período. Até posso dizer que o meu LeeMobile original não tinha um buraco no tecto mas sim um compluuium.
Das ruínas de volta à Nápoles moderna. Mais uma viagem no Circumvesuviana, a última. Cheguei sem tempo para ver o que fosse da cidade, mas ainda conseguir comprar sfogliatellas para levar para o meu companheiro de casa. E dois novos livros em italiano para me fazerem companhia na viagem para cada, que o primeiro já acabou. Igualmente básicos, para poder entender a ideia geral mesmo sem perceber os pormenores. Ainda não é desta que leio Umberto Eco no original...



sábado, 20 de maio de 2017

Un caffè e una sfogliatella

 Viajante que se preze levanta-se cedo. Às quatro e meia da manhã estava de pé, mochila pronta e lancheira pronta (viajante budget leva sempre comida para pelo menos um lanchinho). Tudo de acordo com o plano, para apanhar o autocarro das 05:10  para a estação e o comboio das 06:05 para Nápoles. Porque entre a POC e a personificar tipo A nada é deixado ao acaso. Nada como overplan para ser depois lembrada da máxima “ se queres fazer o universo rir-se conta-lhe os teus planos”. Yup. Não contei com o facto de sábado dia 20 de Maio ser a festa da freguesia, com a rua principal fechada e o trânsito desviado. A minha manhã tranquila afinal começou comigo a correr até às urgências do hospital porque segundo o meu raciocínio à porta de um SU há sempre táxis. Bem não aqui, às cinco e quinze da manhã. Acabei por entrar num hotel à frente do hospital e pedir para me chamarem um táxi. O senhor não estava muito esperançoso de que algum aparecesse a estas horas. Muito arrependida de não ter instalado a aplicação Uber-like bolonhesa (sim, Waas, you were right), fiquei 15 minutos à porta , esperando o táxi que supostamente estava a 4 minutos de distância. Tudo bem, ainda dentro da hora. Cheguei à estação com 15 minutos de antecedência, e ainda bem. Eu pensava que já conhecia a estação de Bolonha. Afinal não. É gigante, um aeroporto em forma de estação, com 4 zonas de partida diferentes. Fiz o caminho em passo de corrida e consegui chegar mesmo em cima da hora. Nota mental: não substimar estações de comboio.
Os 109 euros do bilhete são justificados. O Frecciarossa é realmente confortável, o suficiente para dormir quase de seguida as 4 horas até Nápoles.
Uma vez aí, seguindo a recomendação de um dos italianos, saí da estação e fui directa ao café México beber um café e comer uma sfogliatella. O café é fabuloso, feito numa espécie de prensa, curtinho mas bom. De seguida voltei para a estação, a caminho de Pompéia. O pouco que conheci da cidade pareceu-me suja, malcuidada e não muito amigável. Nunca tive muito boa impressão de Nápoles, mas uma conversa recente com um apaixonado da cidade me fez ter vontade de lhe dar uma segunda opção. Do que vi até agora não sei se vou conseguir…
De volta à estação, para o enxame de turistas que é a linha Circumvesuviana, que vai até Pompéia. Por momentos ainda sonhei ver a paisagem da janela do comboio, mas a experiência é mais semelhante ao suburbano para Sintra às 18 horas do que uma das grandes viagens de comboio. E o pouco que eu consegui ver da janela estava sujo e graffitado.
Finalmente em Pompéia. Primeira paragem hotel, para tirar peso da mala. Tendo em conta que iria passar o fds on the go com a mochila às costas reduzi a bagagem para o mínimo essencial. Pareço uma daquelas nórdicas que dá a volta ao mundo com uma mochila menor do que a que levo para os bancos. Nécessaire minimalista (consigo sobreviver 2 dias usando protector dar como creme), muda de roupa interior e de tshirt e pronto. Afinal o tempo que perdi lendo como declutter my life serve para alguma coisa.
Às duas finalmente entro nas ruínas, numa visita guiada das baratinhas (por muito que seja agradável, o guia particular pesa demasiado no orçamento). Embora tivesse perspectivas elevadas, a visita foi ainda melhor. Realmente o nível de preservação das ruínas é incrível. Os frescos, os mosaicos, os estuques. E tudo ajudou para que a visita fosse agradável. Não estava demasiado calor e não havia demasiados turistas, penso que ambos graças a umas nuvens cinzentas marotas que ainda deram direito a umas gotinhas de chuva.
O universo claramente é um menino maroto: de tantos
frescos, alguns dos mais bem conservados são realmente frescos. Ao que parece as ilustrações da casa das meninas (ou melhor, lobas, o lupanare) eram uma espécie de menu, desenhado com o intuito de evitar confusões linguísticas com os marinheiros estrangeiros. Não podendo contar com o Google Translate, essa parece ser uma boa solução.  
A visita guiada foi interessante mas engloba pouco das ruínas, portanto no final resolvi explorar sozinha. O que não é muito fácil. O mapa fornecido à entrada (a pedido, num guichet diferente, é preciso ir atrás senão não dão) não é fácil de navegar e não parece estar actualizado. No mapa as ruas tem nome, na realidade indicações em numerais romanos indecifráveis. Muitos dos locais que referiam no
mapa como “a não perder” estavam fechados. Quase parece que estão a fazer de propósito, numa tentativa de diminuir o número de turistas… Mesmo assim consegui perder-me durante 3 horas, e ver coisas incríveis. Na visita guiada entramos apenas numa das casas “ricas”, mas que não era claramente uma das mais bonitas. Dos banhos só tínhamos visto o lado dos homens, onde se percebe como funcionava a transmissão do calor, mas no lado das mulheres percebe-se qual era o seu real aspecto, as piscinas de pedra branca, as fontes. Nota mental: da próxima vez perder o amor ao dinheiro e ou fazer a visita cara ou comprar o guia ilustrado…
Ao fim de cinco horas nas ruínas os meus pés ganharam vida propria e decidiram que já chegava, apesar do meu cérebro descordar. Cansada, faminta e com pouco discernimento entrei no primeiro restaurante que vi à saída das ruínas, onde comi a pior pizza da minha vida. Desgostosa com a Pompéia moderna, voltei ao hotel para descansar e dormir cedo, porque amanhã​ a aventura

continua.

Il mio quartiere

 Dia simpático no hospital. Cirurgia oncológica e depois neonatal. Ambos por via aberta e ambos operados pelo Prof Chefe. O resto não tem hipóteses… Pelo meio, graças ao recém-criado network de internos consegui estudar um pouco e passar uma hora no centro de simulação, a tentar inventar uma modelo para treinar pieloplastias. Há uma idéia no ar com luvas de cozinha, segunda feira me dedico outra vez ao tema. Parece um dia curto, mas saí do hospital às 19h.
A caminho de casa, tentativa falhada de comprar tortelinni para o jantar: sold out. É o problema da pasta fresca… sniff sniff. Não sendo essa gulodice, seria outra, pelo que fui correr para merecer o jantar. A vida sem bancos realmente é maravilhosa. Em 2 semanas já consegui passar dos 3km a morrer para 4,5 tranquilos. Eu sei que para parece pouco, mas para quem detesta correr e nunca foi grande fã de cardio é mais do que bom. Antes de voltar passo a marca dos 5km, o que ando a tentar fazer há 5 meses à beira do Tejo…
Depois da aventura do outro dia não me aventurei para muito longe e diverti-me só a fazer quadrículas no meu bairro. Os passeios foram asfaltados recentemente (não há cá calçada portuguesa), pelo que o piso é regular e quase fofinho. As ruas são todas arborizadas, de modo que dá para correr à sombra. A corrida não é longa o suficiente para se tornar aborrecida, e a segurança de saber que se me cansar estou perto de casa acaba por ser uma motivação. Assim como os gelados daqui.
De noite, apesar do cansaço, reuni energias e fui encontrar-me com o meu companheiro de casa e uns amigos no centro da cidade. Estava uma noite demasiado agradável para não aproveitar. Bolonha de noite muda de cara. Perde o seu ar de senhora digna e vira qualquer coisa entre o boémio e o Punk. Muito preto, muita renda, muita tatuagem e muito mau corte de cabelo. E muita gente na rua.
Outra vez, a sorte protege os audazes que resolvem sair de casa mesmo podres. Apesar da sobrepopulação do bar onde estavam tinham arranjado uma mesa na esplanada. As minhas perninhas cansadas agradeceram. E apercebi-me que não conhecia cervejas italianas, para além da Peroni, que é claramente cerveja de estrangeiro. Pelo aspecto dos copos espalhados pela mesa a moda da cerveja artesanal também chegou aqui. Mas não tinham grande aspecto: cara de Guinness quente e sem gás. Portanto acabei por pedir ao Bartender simpático a cerveja mais fresca que eles tivessem. Ainda me perguntou mais 2 ou 3 pormenores (não se pode ser um bar com pretensões hipster e não se tentar fazer uma análise cuidada da personalidade do cliente para adequar a cerveja a ela). E acertou em cheio. Já me esqueci do nome, mas era uma “blanche bier” doce e fresquinha. Saborosa, apesar do aspecto de limonada.
Depois de uma hora de conversa agradável e algumas dicas de viagem lá me arrastei para casa. E como uma boa italiana comprei 2 fatias de pizza para me fazerem companhia no caminho.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Suicidio per prodotti di caseificio

 Manhã corrida. Dez minutos a mais na ronha foram o suficiente para estragar o meu início de dia planeado ao minuto, mas mesmo assim consegui chegar a tempo da visita. Para descobrir que o programa operatório da treta do dia de hoje tinha sido cancelado por causa de um RN que chegou durante a noite. Por um lado iupi, por outro pareceu-me um bocadinho excessivo cancelar os doentes todos. A sala não funciona supostamente até às 20h? Enfim... Dadas as minhas conections com a internagem local consigo agora andar a fazer a minha vida e receber mensagem quando o doente entra no bloco. Resolvi aproveitar o tempo indo finalmente para a sala dos endotrainers, brincar um pouco aos laparoscopistas. Já deu para perceber que ao longo do dia há muito tempo de pausa, portanto agora que consegui pôr as leituras em dia o plano seguinte é construir uns modelos para brincar. Ao fim de 20 minutos já tinhas as mãos cansadas, de modo que fiquei feliz quando me avisaram que era hora de ir para o bloco.
 Outra vez, vantagens da super OR1. Assisti à cirurgia num ecrã sentadinha e confortável, e até aprendi a virar a câmara e mexer no zoom para melhorar a visão. Luxo. Aproveitei também a oportunidade para falar com o colega egípcio do master's que está ao mesmo tempo a fazer o doutoramento na UniBo. Não sei porque é que insisto em estagiar em países europeus... Pelo que ele me contou são 10 cirurgiões e 5 internos para uma população de 20 milhões, com alta taxa de natalidade. Há lista de espera para RN, uma atrésia intestinal sem complicações fica 4,5 dias à espera de ser operada. O programa laparoscópico começou há 6 anos, directamente na fundoplicatura de Nissen e hérnia diafragmática sem passar pela casa partida das apendicites (há que poupar o material para os casos complexos). E os internos aqui a ficarem felizes com uma circuncisão...
 No final da cirurgia, o Prof, que eu às vezes penso que se esqueceu da minha presença, convidou-me e ao colega egípcio para ir com ele a uma conferência em Imola, onde ia falar sobre o papel da Radiologia na Urgência de Cirurgia Pediátrica. Sem ter grande escapatória lá fomos. A viagem foi agradável, a paisagem a mesma que tinha visto nas viagens de comboio, planície plantada com umas casinhas no meio. Logo à entrada da cidade, indicação para o autódromo. Sniff sniff, Ayrton Senna.
 Tarde passada numa sala sem janelas, a ouvir primeiro o Prof e depois radiologistas a falar italiano. Após 5 horas tinha o cérebro em papa. Mal consegui aguentar a conversa no carro, felizmente em inglês. 
 Casa, banho, rua. Depois do dia todo encafuada precisava de ar fresco e um bom jantar. Seguindo a sugestão de um amigo que é um autêntico guia Michelin em forma de gente e que esteve em Bolonha há uns anos fui então em direcção à Osteria Broccaindosso. Que por acaso até fica perto da minha casa. Adoro quando os astros se alinham.
 Resolvi fazer o caminho mais longo, passeando pela Strada Maggiore, apreciando as lojas de velharia e de roupa, e altamente arrependida do meu projecto pessoal de não comprar nada que não fosse estritamente necessário durante um mês. Damn you, blogues sobre minimalismo e decluttering!
 Mesmo a um passo vagaroso cheguei ao restaurante em 15 minutos. Pergunta à porta: Ha prenotazione? Ummmmm. Não. Após 5 minutos de conversa entre os empregados lá se decidem que se eu quiser tenho uma mesa durante uma hora. Ao lado da casa de banho. Ok, aceito. De forma não muito simpática retiram a emente em italiano e substituem-na pela inglesa. E apercebo-me que todas as outras pessoas no restaurantes são turistas (eu não, sou expat, que é mais fixe). A atitude passivo-agressiva mantém-se ao longo
de todo o jantar, mas a comida é tão boa que eu não me importo. Tortelonni con ricotta e de sobremesa crema di mascarpone, regado com um belo sangiovese. Estou a cometer
suicídio com lacticínios e não me importo. 

 Numa tentativa de fazer a digestão (haha, nunca) resolvi não vir directamente para casa e seguir a Strada Maggiore até ao centro da cidade. A cidade é uma mistura deliciosa de velho e novo. Aqui tudo é antigo, e numa boa forma romana, até o belo é útil. Dada a riqueza arquitectónica não tentam preservar tudo, acabam só por utlizar nas mesma os palazzos para habituação, lojas, escritórios. Nesta rua há uma loja de móveis com
frescos no tecto e paredes, noutra rua ocorre o mesmo com uma loja de maquilhagem. Os edifícios servem para viver, o facto de serem lindos é só uma mais valia.
 Ao fim de 40 minutos em passo de caracol cheguei finalmente a casa, para encontrar o meu companheiro de casa e o seu amigo a caminho de uma esplanada a 2 quarteirões de casa. Como sou uma fácil acabei por me juntar a eles, apesar do cansaço. Mas como a sorte protege os audazes quando lá chegamos ao invés da música agradável do outro dia (segundo eles) estava a tocar espanholada electrónica, e voltamos para casa. 
 E agora vou dormir, esperando que o monstro dos lacticínios não venha puxar o meu pé está noite. 

 Your moment of zen:
 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

I carciofi

 Dia pouco interessante no bloco, portanto fui procurar outras coisas com que me entreter. Como me colar como uma lapa ao interno simpático que gosta de falar inglês, e fazer todas as perguntas indiscretas que me ocorreram. Andamos a ver doentes na enfermaria (fiz consultadoria de Uro Ped para o ajudar com um doente com megaureter obstrutivo - aqui não "acreditam" na dilatação com balão). Depois fomos buscar um doente à ressonância, que por ser noutro edifício no mesmo complexo hospitalar gigante de 26 pavilhões dá direito a ida e volta de ambulância. Pela segunda vez aqui me chamaram a atenção quando fui apertar o cinto de segurança, de que nos lugares traseiros não é obrigatório. Mas graças ao meu progenitor visionário isso é algo que eu faço de modo automático e que despoleta a minha POC com direito a crise ansiogénica se não o fizer. Portanto, sob o olhar confuso dos tripulantes da ambulância devo ter estreado o cinto de segurança do lugar traseiro... Depois aproveite mais um tempinho para o estudo, no meu gabinete lindo maravilhoso confortável tranquilo, até aparecer uma apendicite complicada que interrompeu o programa. E que fez com que chumbassem o hipospadias que estava muito curiosa em ver. Para provar que nem todos os apêndices saem pelo umbigo tiveram que por mais duas portas para sacar o bicho... 
 Depois do "giro" da tarde (que é como quem diz visita), resolvi que não conseguia encontrar desculpas para ficar no hospital num dia tão bonito e resolvi vir embora mais cedo. Para correr. Porque eu gosto de sofrer. E de gelado.
 Resolvi como no outro dia sair mais ou menos sem rumo, atravessando a rua ou virando a esquina de acordo com os semáforos. Como era cedo, 17h, não estava muito preocupada com anoitecer ou ruas vazias. E fui correndo, com o objectivo de aos 3km voltar para trás. O que eu não contava era com o calor e com o pólen, e aos 3 km estava cansada, desconfortável e a espirrar.
Portanto resolvi voltar calmamente caminhando para casa, assim poderia apreciar a paisagem (e não desfalecer). Confiando no meu sentido de orientação fui virando aqui e ali, com a certeza que na pior das hipóteses acabava no complexo hospitalar e daí saberia ir para casa. Fui andando, andando, andando. A apreciar as casas, apercebendo-me que afinal o meu bairro era melhor do que eu pensava, uma onda tipo Restelo. Depois passei por uma rua com duas mercearias com muito bom aspecto, e ponderei ir lá depois comprar qualquer coisa para jantar. E continuei a andar, passando por um convento de Carmelitas Descalças, várias gelatarias com
bom aspecto, outra charcutaria... E nada de chegar a casa ou a algum sítio que conhecia. Desisti de me tentar orientar num bairro altamente residencial e liguei o Google Maps. Estava a 2,5 km de casa na direcção errada. Revendo o percurso no Runtastic eu estive mesmo à porta de casa e depois virei na direcção errada. E foi assim que a minha corridinha rápida virou um passeio de 7 km...

 Em casa, mais um momento completamente italiano. Um amigo do meu companheiro de casa vai passar alguns dias connosco, e aqui ninguém aparece para visitar sem trazer comida.Pelo que o meu lanche foi constituído por carciofi della nonna, alcachofras em conserva de vinagrete preparadas pela sua tia de 83 anos, com um queijo delicioso e pão. Espero que ele ainda volte no meu tempo cá, porque ao que parece a sua cidadezinha é a terra natal da mozzarella di bufala, e ficou no ar a promessa de um belissímo exemplar.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Gelato al pistacchio

 Piano, piano, estão a começar a habituar-se à minha presença. Sem dúvida as aulas de italiano foram uma boa jogada. Desde que se aperceberam que não precisam de falar inglês comigo os médicos por aqui tem sido muito mais simpáticos. Hoje já consegui discutir doentes, ter explicações detalhadas dos procedimentos, e convite para assistir a uma cirurgia conjunta com a neurocirurgia amanhã. Fiquei muito orgulhosa do meu italiano, que me permitiu discutir catéteres centrais durante 30 minutos (os ecoguiados são só postos por anestesista, raramente usam a subclávia mas fazem a abordagem por desbridamento da axilar). O único problema de agora me darem atenção é que tive pouco tempo para estudar e saí do hospital às 20...
 Durante esta estadia tenho pensado várias vezes na minha síndrome de Peter Pan. Talvez por estar a viver numa casa de universitários, a passar tempo com internos, com poucas responsabilidades. Por vezes esta minha reticência em crescer preocupa-me. Mas noutras vezes, como hoje, faz-me uma pessoa muito feliz. Depois de um jantar de gressinos e scquaquerone convenci o meu companheiro de casa a ir até ao centro da cidade comer um gelado e encontrar-se com os seus amigos simpáticos. E qual é o método de locomoção preferencial numa cidade plana e pequena, cujo centro está fechado ao trânsito? Bicicleta! Eu não aluguei um quarto, aluguei uma vida, que para além de roupa de cama e amigos vinha com uma bicicleta. Podre, sem travões, roda empenada, mas mesmo assim funcionante. E foi assim que eu, eterna promotora de segurança rodoviária, dei por mim a pedalar por Bologna  sem capacete e a travar com os pés. Antes que o meu progenitor e irmão tenham uma apoplexia, lembrar que a ciclovia cobre 80% da cidade, e que foi um risco calculado. YOLO. Just kidding, um dos planos para amanhã é alugar uma bicicleta decente e um capacete.
De cabelos ao vento, sorriso na cara, fomos até ao centro da cidade, até à gelataria favorita do meu companheiro de casa, Cremeria Funivia. Life changing experience. O melhor gelado que comi até hoje ( e que pode ser o último, uma vez que os gelados devem ser 60% nata). A consistência suave, a cor, o sabor! E o pistachio, verde acinzentado, delicioso... O facto de ter sido degustado numa noite que parece verão numa piazza italiana também pode ter contribuido para a experiência. 
 Daí seguimos até à Piazza Maggiore, onde pousamos as bicicletas e estivemos sentados nos chão ainda quente do sol, à frente da Basilica de San Petronio, até que chegaram os amigos italianos com pizza. De sobremesa, outro gelado na Piazza Santo Stefano (menos pontos no critério consistência, mas igual no sabor), no meio de conversa simpática e interessante. Nem quando era universitária fui tão universitária. Acho que ainda não se aperceberam que eu tenho mais 10 anos do que eles. Uma das muitas vantagens de ser imatura.
 Retorno a casa enquanto ainda havia energia, rindo em voz alta e temendo pela minha vida. Vou acreditar que o trajecto deu para queimar pelo menos meio gelado...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Lo studio

 Noite terrível. Entre a chuva de fim de mundo e  a minha predisposição para sono merdoso passei uma noite agitadissíma, e esta manhã fui para o hospital em modo zombie. Cheguei ainda mais cedo que o habitual porque hoje tinha um plano: pedir aos internos uma cópia da folha da visita, onde estão os dados de todos os doentes internados. Para ver se começo a apanhar alguma coisa das visitas relâmpago. Acho que nem os italianos percebem bem o que se passa. Só percebo que o Professor Chefe toma a maioria das decisões... Portanto apareci na salinha dos médicos, armada do meu melhor sorriso, para ser recebida de forma meio mal encarada pelos seniores, um já conhecido, o outro não. Ao contrário de MCR, onde fui rapidamente adoptada no hospital, aqui não estou a ter a mesma facilidade. Em parte porque basicamente só os especialistas envolvidos no master falam inglês, e em parte porque os outros estão-se claramente a borrifar para a minha presença. Além de que ainda não percebi o que andam a fazer todo o dia. Há duas salas de bloco em funcionamento e duas consultas por dia. Mas eles são 10 especialistas e 7 internos. Não deve haver trabalho para todos, porque ao longo do dia vão passeando pelo bloco, ficam um bocadinho, mandam umas bocas e seguem. Portanto, o meu plano de ataque passa por fazer amizade com os internos, que pelo menos arranham inglês.E pode ser que me consigam explicar como as coisas funcionam por aqui. Por exemplo, quando é que eles operam, que até agora não vi interno nenhum a fazer nada... Bem, continuando, apesar do ar enfadado dos dois senhores mais velhos, lá descobri um interno no cantinho, a quem me apresentei e pedi a folha da visita. Primeira meta conseguida. Agora só falta perceber o que é que as abreviaturas significam...
 Depois da visita segui para o bloco, para uma bela cirurgia minimamente invasiva: ressecção de sequestro pulmonar intralobar numa criaturinha de 6 meses. Para não variar, 3 especialistas a operar. Começou tudo muito bem, tiraram.se muitas fotos, mas aos 10  minutos de jogo optaram por converter por dificuldades na ventilação do doente. Ohhhhhhh... Mas nem tudo estava perdido. Graças à fabulosa sala OR1 , que para além de uma câmara no pantoff tem também duas câmaras no tecto que podem ser controladas remotamente na consola, e que estão num ângulo que permitem apontar para o interior das cavidades. De modo que só me faltou o balde de pipocas, fiquei sentadinha e descansada a ver o filme na TV. Depois supostamente haveria um hipospadias, mas que foi chumbado por febre à chegada. Pelo que eu percebi não há consulta prévia de anestesia, os doentes são vistos pelo pediatra assistente fora do hospital e este manda uma cartinha a dizer que está tudo bem.
 Poderia ter fugido às 13h para ver os modelos anatómicos que estão noutra colecção da universidade, mas parecia mal. Para além disso quem estava de banco hoje era um dos doutores simpáticos do master's, pelo que resolvi ficar pelo hospital à espera que coisas acontecessem. E onde fiquei eu? No meu gabinete! onde tenho uma
mesa, uma cadeira e um candeeiro só para mim. Sem interrupções. Sem barulho. Com uma cadeira com apoio lombar e um candeeiro com muita luz. Tão bom. Hoje estudei mais do que nos 2 meses prévios. Porque fiquei de castigo no hospital, e porque a capacidade de concentração e a resistência são outras quando não se faz bancos. Mesmo que não se durma à mesma.
 Às 17h, quando me preparava para fazer uma  saída discreta, o doutor simpático apareceu para me dizer que havia uma apendicite, e que entraria no bloco em breve. Yupi. Voltei para o meu gabinete e estudei mais um pouquinho, que é como quem diz até às 19h30, que foi quando o doente entrou no bloco. Afina há coisas que são mesmo iguais em todos o lado... Enquanto esperava que a cirurgia começasse, meti conversa com outros dois internos que estavam na sala. Jackpot. Os dois super simpáticos, um cheio de vontade de falar inglês e a outra de corrigir o meu italiano macarrónico. Devagarinho ainda conquisto esta malta. Vão ver, ainda vou acabar por ter uma festa de despedida!
 E foi assim que ao fim de 8 anos no mundo da cirurgia pediátrica, que via a minha primeira apendicite "laparo-assistida pelo umbigo". Com uma óptica com canal de trabalho e um trocar umbilical com um balão na extremidade que evita as fugas quando se alarga o orificio umbilical até eu! O apêndice foi amigo, o cego pouco preso, e a cirurgia rápida. Interessante e menos laboroso. Mas um pouco preguiçoso para o meu gosto. 
 Consegui portanto sair do hospital 13 horas depois de lá ter entrado, com os supermercados à minha volta já todos fechados. Portanto amanhã não tenho outra forma de sustento que não seja uno corneto di cioccolato e uno capuccino ao pequeno almoço. Ohhhhhh.... Quanto ao jantar, vim todo o caminho a pensar nos tortelinnis que tinham sobrado do outro dia, e que ainda deviam estar bons. Só quando cheguei a casa é que me apercebi de um pequeno problema: não há microondas. Mas há internet, e depois de ver como se aquece comida no fogão (eu sei, eu sei, tive uma existência privilegiada), jantei uma belissíma pasta já não tão fresca mas ainda muito saborosa.
 E agora vou colapsar, porque a primeira reunião de amanhã é às 07:30...

domingo, 14 de maio de 2017

Ciao, Teodora!

 Continuando o meu percurso de melhoramento cultural pessoal, às 9 da manhã estava a chegar de autocarro na estação de comboios de Bolonha. Depois da mini-meia maratona de ontem resolvi que hoje poderia preguiçar um pouco. Além de que já era altura de conhecer o sistema de autocarros da cidade. Funciona muito bem, excepto na parte em que a máquina dos bilhetes me roubou um euro...
 Em Ravenna fui recebida pela guia directamente na estação, e o passeio começou quase imediatamente. Ao contrário do passeio de ontem, em que fomos conhecendo a cidade, este seria muito mais to the point: visita aos quatro mosaicos mais famosos e toca a andar. Humpf. Fiquei imediatamente com a sensação de que esta tour não iria ser grande coisa. Da estação fomos para a Basilica di
Sant'Apollinare Nuovo. Logo na fila dos bilhetes apercebi-me que a guia não era muito paciente. Bufou o tempo todo que estivemos na fila, a maldizer os turistas dos cruzeiros (que aparentemente são responsáveis por uma porção significativa do turismo da cidade). Apercebi-me quão irritante é ter uma pessoa impaciente a bufar ao nosso lado, e fim uma promessa pessoal de tentar bufar menos (o que eu sei que faço quando estou impaciente...). Uma vez lá dentro, primeiro momento AHHHHHHH do dia. Os mosaicos são lindissímos, e com a luz a incidir sobre eles parecem quase mover-se. Muito bem conservados para quem foi feito no século V.  E muito inovadores: primeira imagem da Virgem e dos Reis Magos registadas no mundo ocidental. Lindo. Daí fomos andando para o site nº 2, Battistero Neoniano. Durante o caminho não houve
grande conversa. Lá perguntei o que eram alguns edifícios por onde iamos passando, mas a senhora não demonstrou grande interesse em falar muito sobre o que quer que fosse que datasse depois do século X...

 Na entrada do Battistero, novo embate com os turistas dos cruzeiros. Ela bem tentou furar a fila e convencer os senhores da entrada a deixar-nos passar à frente, mas sem sucesso. Acabamos por entrar depois, e ainda bem, porque o espaço é pequeno e difícil de apreciar com 40 pessoas no interior. Segundo momento AHHHHHHH. A imagem do tecto, com Jesus imerso sob a água, é deslumbrante. E a a restante decoração é igualmente incrível. E a imagem do tecto irá ficar cada vez mais próxima, uma vez que o edifício está a enterrar-se no solo à velocidade de 1mm por ano (e já está 3m mais baixo do que quando foi desenhado, o que se pode ver pelas portas originais de entrada e que já só se consegue ver a extremidade superior ao nível dos pés). 
 Sem grandes conversas seguimos para o último local, onde estão os últimos 2 monumentos. O Mausoleo de Galla Plácida, 3º momento AHHHHHH, tem um dos céus estrelado mais bonitos que já vi. Seguimos então para o grande finale, a Basilica de San Vitale. Devo dizer que foi um passeio bem projectado - o 4º momento AHHHHHHH foi o melhor deles todos. A beleza dos mosaicos é tanta que se sente
fisicamente o peso no peito. O interior do edifício está mais ou menos conservado,com frescos apenas parciais no tecto, e metade das paredes sem o revestimento de mármore original (que foi roubado por Napoleão). Mas a nave onde estão os mosaicos é de tirar o fôlego. Inicialmente me senti deprimida pensando que em tempos toda a basilica foi decorada dessa forma, e que apenas aquele pedaço chegou até aos dias de hoje, mas passou quando aprendi que na realidade os mosaicos originais eram só aqueles. Os senhores tinham dinheiro mas não vamos exagerar. 
 E pronto, final da visita. Senti claramente que a de Ferrara tinha valido muito mais a pena. Quase poderia ter feito a mesma visita comprando o guia ilustrado. Mas esta senhora tinha a vantagem de ter um ponteiro laser para me mostrar os pormenores das figuras. E se redimiu com a sua sugestão para o almoço, que foi uma verdadeira viagem no tempo. O Al Gallo foi inaugurado em 1909, e
mantém a mesma decoração, não só nas paredes como em duas salas de espera e no jardim. Parece parado no tempo. Para além de que o cappelletti al tartufo estava monumental. 
 Novamente movida a hidratos de carbono fui dar uma voltinha à cidade depois do almoço. Embora bonita, não é assim tão interessante. E vira uma cidade fantasma durante a hora do almoço, com as igrejas e os museus fechados. Ainda assim consegui visitar o túmulo do Dante Aligheri (cujos ossos os frades franciscanos esconderam durante alguns séculos para não ter que devolver a Florença ) e comprar um chapéu (que já começa a ser tradição, ser apanhada por bom tempo e começar a fritar ao sol). Mas acabei por preferir passar o tempo até ao comboio de volta descansando os pezinho e people watching com a bela companhia de um capuccino.


Mangiando zucca in modi diversi

 Nada como a perspectiva de um fim de semana livre, sem bancos à vista, para me fazer acordar antes do nascer do sol. Às sete e meia da manhã de sábado já estava a preparar o farnel para a visita a Ferrara. Às oito e meia de mochila às costas, a caminho da estação - 3,65km de distância (desde 6ª comecei a registar obsessivamente as distâncias percorridas, aproveitando o Runtastic). Cinquenta e quatro minutos depois estava a comprar o bilhete de comboio (Runtastic rules). 
 Depois de muitas dúvidas e muito tempo perdido na internet a tentar decidir que fazer este fim de semana acabei por optar por duas pequenas day trips a partir de Bologna, Ferrara e Ravenna. Uma vez tomada a decisão, começou o ataque internético à procura do que fazer. Uma das razões por optar por estas duas pequenas cidades residia no facto de apesar de bonitas não serem particularmente turísticas, dada a existência dos pesos pesados por perto. E rapidamente se chega à conclusão que ainda não estão muito preparadas para o turismo não italiano. Para além dos sites difíceis de navegar, não existem visitas guiadas em inglês em nenhuma das duas. A necessidade de saciar o meu vício de walking tours me levou a mandar emails para vários guias sugeridos no Trip Advisor, apesar de ter ficado com a sensação que organizavam maioritariamente tours privados. Yup, receio confirmado pelos emails de resposta - 120 euros para Ferrara, 60 para Ravenna. Usando a racionalização que me tem feito gastar um balúrdio de dinheiro no último mês (o facto de ter conseguido passar de um quarto bastante caro para um muito baratinho, portanto posso aproveitar para gastar a diferença em outros aspectos relacionados com a estadia, como as aulas de italiano, a viagem a Pompéia, etc), resolvi que pelo menos a de Ravenna iria aproveitar. E mandei os respectivos mail de recusa e confirmação. A sorte protege os audazes ( e aqueles que gastam dinheiro). Por acaso a guia de Ravenna só tinha disponibilidade para Domingo, e como para mim não fazia diferença ficou acordado para esse dia. E ao fim do dia de sexta feira recebi um email da senhora de Ferrara dizendo que por um enorme acaso tinha recebido outros 2 pedidos de informação sobre uma tour em inglês neste sábado e se eu estivesse interessada poderia me juntar aos outros dois viajantes, fazendo com que o preço ficasse a 1/3 do original. Score!
 Portanto, com o telefone cheio de podcasts e o Runtastic para saber exactamente quantos metros andei, lá fui eu para Ferrara. O caminho de comboio é bonito mas monótono. Planície agrícola cultivada com umas casinhas no meio. Uma vez lá, a primeira impressão é que voltei a Holanda: assim que saio da estação vejo um estacionamento enorme de bicicletas. E só bicicletas na estrada. Eu pensava que tinha visto todo o tipo de acrobacias ciclísticas no meu mês holandês, mas em cinco minutos vi coisas novas: uma bicicleta com um suporte tipo side car para cadeira de rodas, uma senhora equilibrando 3 crianças, e pelo menos duas pessoas escrevendo mensagens no telemóvel sem nenhuma mão no guiador. Claramente uma campanha de sensibilização wating to happen...
 Mas não tive tempo de apreciar muita coisa. Tive que ir a correr da estação até ao centro da cidade para tentar apanhar a visita guiada ao Castello Estense. Em italiano. A senhora da bilheteira ainda me tentou demover, dizendo que demorava hora e meio, e nem sequer era assim tão interessante... Tinha razão em parte: a visita foi interessante, o castelo nem por isso. Apesar de por fora ter um aspecto de castelo das histórias, com direito a fosso com água à volta e tudo, por dentro está quase totalmente descaracterizado, com excepção de algumas salas que ainda tem frescos no tecto. Que estão repletos de "pensos rápidos" de papel encerado enquanto esperam reparações após os danos do último terremoto.
 Cada vez mais fico contente pela minha decisão de tentar aprender um mínimo de italiano antes de vir para cá. Tenho a certeza que perderia muito daquilo que tenho aprendido e apreciado sem isso. Já percebi por exemplo no hospital que  tirando os internos e as pessoas envolvidas no master's o resto do pessoal não vai fazer esforço nenhum para comunicar noutra língua. E nos museus e outros monumentos quase nunca há "legendas" em inglês. E as visitas em italiano são tãããããõoooo mais baratas.
 Do castelo fui passeando pelas piazas e pelas ruazinhas até ao meu destino gastronómico, Il Mandolino, restaurante sugerido pela guia. Óptima escolha. Uma pessoa sabe que acertou quando o restaurante está cheio de famílias italianas. Relativamente pequeno, nas mãos de uma dinastia culinária que começou com a Nonna Noemia (que faleceu há uns aninhos depois de ter ultrapassado os 80), decorado com quadros e fotos oferecidos. Almocei na companhia do meu livro italiano (um romance merdoso traduzido, com linguagem simples o suficiente para eu enterder - o próximo será a Divina Comédia no original) e de 2 copos de vinho. Fiore di zucca e cappellacci di zucca, com um bolo de chocolate como sobremesa. Meio cambaleante dei mais umas voltinhas pela zona velha até ser hora de me encontrar com a guia.
 A visita guiada valeu o dinheiro pago por ela. A guia era super simpática, os outros dois senhores pessoas tão interessadas quanto eu, e as 3 horas da visita acabaram por ser 4. Em parte porque tivemos que alterar o percurso da visita devido à invasão do centro da cidade por fãs do Spal, o clube de futebol local, que conseguiu subir de divisão nessa tarde. Os vendedores de bandeiras apareceram num instante, e em pouco tempo não se conseguia passar pelo mar de azul e branco (senti-me em casa). Claro que não foi tão grande como a comemoração de Fátima, Futebol e Fado que sei viu em Portugal, mas mesmo assim respeitável.
 Entre outras coisas, aprendi que Ferrara foi quase tão importante como Florença durante o Renascimento, mas que perdeu quase tudo quando os Este  (do Castello Estense) se foram embora. Que a Lucrécia Borgia talvez não fosse tão má pessoa como foi pintada, e que aparentemente passou a segunda metade da sua vida muito feliz em Ferrara, parindo filho atrás de filho e sendo uma boa duquesa para o povo. Que o Ercole I desenhou o primeiro plano de desenvolvimento urbano, construindo uma muralha à volta da cidade englobando aquilo que ele queria que se transformasse num bairro novo, e que por causa disso Ferrara é uma das cidades históricas mais bem conservadas do mundo, porque não precisou de destruir os  edifícios antigos para encontrar lugar para crescer. E, mas interessante de tudo, que a Casa dos Bicos em Lisboa é uma cópia! Igualzinha ao Palazzo dei Diamanti em Ferrara! 
 E foi aí que acabou a visita. Aproveitei o resto dos hidratos de carbono do almoço para andar mais um pouqinho, até à gelataria sugerida pela guia, onde atestei o depósito com nutella, chocolate e pistachio. Uma palavra sobre o gelado de pistachio - não tem nada a ver com a gosma verde que se come noutros lugares. Tem uma cor verde mais escura, e é delicioso. Decidi que esta vai ser a minha tríade pespsi challenge para as diversas gelatarias italiana.E de gelado na mão, andei até à muralha intacta da cidade, e seguia-a até à estação. 
 Com mais uns km até a casa, percorri um total de 14 km.  E segundo o Runtastic queimei 5000 kcal, porque ele acredita que eu passei todo este tempo a correr...